Graziela Giusti Pachane

EXPOSIÇÃO

  • Gênero: Drama | Público Adulto

EXPOSIÇÃO

Olhei pra um lado e pro outro. Nada. Os sons estavam distantes. Madrugada. A escuridão da rua e o ventinho gelado me faziam ter certeza do tempo passado. Senti medo. Me enrolei melhor na blusa de lã, criei coragem para me levantar e dei alguns passos em direção à esquina. Nem uma moto passava. Talvez fosse melhor assim, pensei.

Apalpei ao lado, percebi que ainda carregava minha bolsa e, com isso, tudo de importante que me restava. Chaves, documentos, o cartão. O celular estava ali também, desligado. A bateria morta desde o começo da noite.

O céu tinha nuvens. Às vezes uma garoa fina molhava meu rosto, deitava suave camada de água em minha roupa e meu cabelo, mas o próprio vento se encarregava de levá-la.

Cogitei me proteger no ponto de ônibus. Achei que seria muito exposto. Talvez nada tivesse me acontecido pois vestida toda de preto e jogada no canto de uma mercearia, tenham me tomado por uma pilha de sacos de lixo.

Ao me deparar com a esquina, com ruas que seguiam em quatro direções distintas, a noção de que não tinha para onde ir se fortaleceu. Cheguei a pensar que sonhava, tão estranha e avassaladora era a sensação que me tomava. Direita, esquerda, frente, trás, cima, baixo. Tudo perdeu sentido. Só existia fora e dentro. E a vertigem.

Aos poucos fui notando essa espécie de redemoinho crescendo entre meu estômago e meu coração. Como um tornado, uma espiral esbranquiçada foi crescendo e, mais parecendo a ponta de uma imensa broca, foi abrindo um buraco dentro de mim. Um buraco que, ao mesmo tempo que crescia, ia me engolindo, como se eu fosse tecido atravessado pelo furo de um gigantesco ilhós.

A dor extravasava em lágrimas, que escorriam pelos olhos, subitamente ofuscados pela luz fria e azulada. Por luzes, melhor dizendo. Elas piscavam, subiam, desciam, se alternavam. O foco das atenções estava direcionado para mim. Eu já não vestia a mesma roupa e estava adornada de joias. Minha bolsa, diferente da primeira, era de grife, escolhida a dedo para formar conjunto com roupa, joias, sapatos, maquiagem.

Os clarões não vinham de grandes câmeras. Havia dezenas de pequenas telas erguidas ao meu redor. Rostos desconhecidos, mal iluminados por retângulos frios, esticavam seus braços curiosos. Lentes reluzentes lembravam olhos de insetos, vigiando cada movimento que fazíamos.

Ele se esquivava dos LEDs, cobrindo o rosto com o paletó, tentando se ocultar atrás de mim. Alguém perguntou sobre o caso extraconjugal. Que caso? Nós não éramos casados.

Agarrei o braço de uma jovem que se espremia ao meu lado, empolgada, tentando me enquadrar junto dela. Olhei a tela. Ela protestou porque eu havia desfocado a imagem. Prejudicava o engajamento. Vi meu rosto, cercado de comentários que subiam sem parar.

“Traidor”
“É ela. Safada.”

“Pegaram os dois”

“Coitada da esposa.”

No canto da tela, um número pulsava: 32 mil pessoas assistindo. E subia como um cronômetro disparado: 33, 35 mil.

A influencer retomou o controle de seu aparelho e narrava tudo com entusiasmo, como se descrevesse um espetáculo da bolsa de valores em ascensão.

Como não adiantava mais se esconder, ele agora tentava encontrar uma desculpa. Sempre fora assim. Discreto. Restaurantes afastados, eventos alternativos. Horários improváveis. Nada de fotos. Nada de redes. Era para me proteger dos curiosos, das perseguições. O trabalho dele era muito visado. Sempre o trabalho.

Na tela, alguém compartilhou outra imagem. Ele, sorrindo, roupa de viagem, óculos escuros. Abraçava uma mulher. A mão dela repousava sobre o peito dele, gesto de intimidade tranquila, em sinal de mútua proteção. A esposa. Ao fundo, o contexto: Olimpíadas de Inverno de Milano Cortina.

Minha reação foi transmitida ao vivo para mais de 30 mil pessoas.

Dois anos de uma mentira sangravam no Coliseu das redes sociais, onde polegares pra cima indicavam curtidas: cancelem.

Uma cratera se abriu para mim. Não tinha mais para onde ir. Eu tinha caído na rede.

Observação do Autor

Este texto foi originalmente publicado na antologia Vertigens (2026), da Vinca Editorial, organizado por Eliana A. Brito.

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