- Gênero: Terror | Público Jovem Adulto
Joseani Vieira
Esquerdo, direito. Esquerdo, direito… Treze vezes. No topo da escadaria com os pés alinhados comprometendo seu equilíbrio, observa a porta de madeira escura e pesada, esculpida de uma maneira que os carpinteiros de hoje em dia não fazem mais. Com as mãos inseguras, movimenta a maçaneta gelada. O ranger de dobradiças centenárias, acompanha o descortinar do ambiente.
Prédio alto. Teto inalcançável, com figuras que retratam deuses e anjos. Os caídos também. Flores apagadas de um antiquado papel de parede, manchas de mofo e de infiltração, além de prateleiras apinhadas de livros, compõem a decoração. Observa os livros mais altos que há tempos permanecem intocados. Impossível reconhecer suas capas originais, soterradas por grossas camadas de poeira.
Esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito. Para e se deixa envolver pelo cheiro de papel e de histórias recontadas. O ar é pesado, o local mal iluminado, soturno como sua alma. Vez ou outra, um colorido vindo dos vitrais transpassados pela luz de fora, protagoniza uma disputa silenciosa entre a luz e a sombra. Sente-se como se estivesse numa bolha fragilmente protegido ou então perdido perigosamente num vácuo.
Apesar disso, a biblioteca pública é o seu lugar preferido naquele vilarejo distante. Uma mistura de presente e passado promove um encontro de personagens, viagens e vidas diferentes da sua. Reside aí o interesse que o faz repetir aquele ritual todas as tardes.
Esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito… São dez passos até o balcão. Procura pisar nos espaços que um dia foram brancos no piso decorado com losangos. Fica frente a frente com a bibliotecária, perfeita para aquele serviço, excetuando a limpeza (problemas no ciático e excesso de idade). Com falsificado interesse, ela o cumprimenta cortês:
— Boa tarde. Quer o livro de ontem? Ainda nem devolvi na prateleira.
— Não. Não quero não, esse já li. — responde-lhe olhando para os furinhos de cupim na madeira do balcão, enquanto lhe estende seu caderno de anotações, com o nome de outro livro de seu interesse.
Dona Leah e sua bengala somem pelas prateleiras que ficam emparelhadas no salão espaçoso, que ainda acolhe mesas e cadeiras em tons formais. Quando volta traz o livro e dispara o mesmo conselho de todas as tardes:
— Pegue, tome cuidado com a poeira. Não vá perder o horário de sair. A biblioteca fecha às oito, como sempre.
Com o livro nas mãos e ironizando mentalmente o conselho cotidiano, senta-se no lugar de sempre, reservado e distante o máximo possível do barulho das crianças que volta e meia são trazidas pelas escolas para visitar a única biblioteca do lugar.
Abre o livro e dá partida na viagem. Letra a letra, palavras, imagens e sentidos penetram em sua mente, afastando-o do mundo real. Lê o quanto pode, até a hora da biblioteca fechar. Vai para casa com o vazio de não poder levar o livro que não terminara de ler, devido a um fato muito esquisito acontecido com ele naquela tarde. Estranho mesmo… Sinistro!
No dia seguinte, meio temeroso, procura agir normalmente. Abre a contagem dos degraus e dos passos. Observa o ambiente: parece estar tudo igual. Apura os ouvidos por alguns segundos: nada de estranho. Está tudo normal. Chega no balcão, vê os mesmos furinhos e encontra-se com o próprio reflexo nos óculos escuros da Dona Leah.
— Boa tarde. Quer o livro de ontem? Ainda nem devolvi na prateleira.
— Quero sim. “Contos Extraordinários”, livro gostoso de ler. — fala com um brilho diferente no olhar.
Enquanto se dirige para o local de leitura, rememora o sucedido na tarde anterior. Molhava a ponta do dedo para virar as folhas, quando percebeu um sabor levemente ácido. Acelerou a leitura para ter que virar mais rapidamente as páginas e intensificar aquele gosto. Lambeu o indicador e a pontinha do livro e gostou. Lambeu mais um pouco. No mesmo instante começou a ouvir sussurros vindos, não se sabe de onde, que diziam palavras inaudíveis, querendo lhe intimidar. Olhou no entorno, notou que os poucos frequentadores da biblioteca mantinham suas caras enfiadas nos livros e não demonstravam ouvir barulho assustador nenhum. Arrepiou-se até os ossos naquele momento e mais ainda agora, ao rememorá-lo.
Tenta esquecer o susto entretendo-se com o livro. Anima-se com o novo sentido envolvendo a leitura, que agora lhe atinge o paladar. Lambe, novamente o cantinho do livro. E de novo acontece: falam algo em seu ouvido, sente um sopro frio na nuca enquanto percebe que uma sombra sobrevoa acima de sua cabeça. Isso o apavora. Fecha o livro e o deixa de qualquer jeito em cima do balcão. Dona Leah estranha, ele nunca age assim.
No caminho de casa, sente-se vigiado. Olha para trás, uma, duas, três vezes e não vê ninguém. Apressa o passo e se esquece de contar os paralelepípedos do caminho. Tem pressa de chegar em casa.
Nas tardes seguintes chega mais cedo que o habitual. Sobe as escadas correndo. Não conta os degraus e nem respira fundo. Dirige-se ao balcão, ignora os sinais de cupins. Interpela Dona Leah afobado:
— Hoje quero ler um livro curto de Machado de Assis. O Almada, tem? — olha desconfiado para os lados. Ninguém.
Senta-se num local mais envolto em sombras. Entrega-se à leitura do livro. Passa as páginas com o dedo molhado na saliva. Ah! Que livro delicioso! Mastiga um pedacinho. Na boca explode um sabor agridoce. Tira mais um naco da página. Ninguém podia vê-lo. Ouve novamente os sussurros horripilantes. Apesar do medo, pelo gosto daquele livro, vale correr o risco. Ignora a voz cavernosa e decide que pode conviver com ela. Pensa que pode ser coisa da sua cabeça ou Dona Leah lhe pregando uma peça. Quem sabe? Talvez… saboreia mais um tiquinho.
Com o passar do tempo e da impunidade, fica mais atrevido, come páginas inteiras de obras alternadas, disfarçando seu delito. Descobre que cada uma guarda um sabor diferenciado. Capitães da Areia, gosto de maresia. A moreninha, tem a doçura do bombocado. No O crime do Padre Amaro, o regalo dos cozidos e do vinho. Gabriela Cravo e Canela, a quentura do acarajé. Sente orgulho por ser o único a saber do gosto das letras transformadas pelo tempero da criatividade. E os sussurros? Apesar da angústia, se acostuma, conclui que não fazem mal a ninguém. O importante é alimentar a alma com as palavras.
— Outro livro? Já leu os de ontem? — estranha a senhora.
— Praticamente os devorei. — responde num breve riso.
Na vez de Dostoievski, o sussurro se intensifica Não entende claramente as palavras, mas o tom transmite uma ameaça não disfarçada. Supera o pavor e concentra-se no livro. Lê uma parte, sorve outra em pedaços pequenos. A ânsia de obter prazer o leva a devorar uma conversa da senhora Khokhlova. Saber e sabor, acidez e ironia, transgressão. Sussurros indo e voltando, tentando intimidá-lo a não fazer aquilo. Ele, entregue à gula, finge não ouvir.
Neste instante, assusta-se com a chegada de crianças barulhentas e suas professoras incapazes de controlá-las. Dirige-se para um local mais oculto, senta-se no chão e saboreia um capítulo inteiro. Engole palavras soltas. Julgamento… Irmãos, Grushenka, rublos, capitão, presbítero. Regala-se com a iguaria em êxtase, insensível aos alertas cada vez mais constantes. Que se danem!
Alma alimentada, palavras engolidas e as vozes que continuam sussurrando uma espécie de aviso… Fecha os olhos, sem vontade de pensar em nada. Sente-se tão satisfeito…
Aturdido ouve o carrilhão do relógio bater doze badaladas. Abre os olhos tentando se acostumar com o escuro e entender onde estava. Adormeceu e foi esquecido na biblioteca?
Sentidos em alerta anunciam o perigo! Tenta se mover. Um peso descomunal oprime seu corpo e ele escuta o som de risadas macabras. Barulhos de livros abrindo e fechando feito asas e de dentes batendo ecoam no silêncio daquela madrugada. Com o fôlego curto detecta o cheiro de livros antigos. Quer contá-los, mas sequer consegue levantar o pescoço. Sabe que são muitos.
Sente no rosto o frio grudento de teias de aranha. Percebe sombras retangulares se atirando no breu. Mais e mais livros ocupantes das estantes altas caem agressivamente sobre ele. Dor lancinante e o estalar de ossos que se partem: tíbia, fêmur, costelas… Tudo dói! Inclusive o arrependimento da gula pelos livros e por não dar ouvidos aos alertas que antecederam aquele horror vingativo.
Num lampejo insano, regozija-se ao entender que vai morrer sob uma montanha de livros. Acha aquela morte maravilhosa e inusitada! Ainda assim, implora em voz alta por um golpe de misericórdia e tem o seu pedido atendido. Um livro de capa dura, em queda desembalada atinge em cheio a sua cabeça provocando uma rachadura. Os demais com dentes afiados, fazem dele o prato principal do banquete. Sente as dores de ser devorado.
Sem poder se mexer, grita desesperado. Um livro pequeno de autoajuda, arranca-lhe a língua num movimento ágil. Através da cortina de sangue que embota seus olhos, consegue ler o título do livro que se aproxima de boca aberta e dentes afiados, pronto para lhe devorar a face: O IDIOTA. Moribundo, pensa com seus farrapos que aquele é um livro que todos devem ler antes de comer… ou morrer.
