Graziela Giusti Pachane

PARÁBOLA DE HEIN

  • Gênero: Comédia | Público Adulto

O grande imperador Hein observava a multidão do mirante de seu castelo. Viu uma transeunte estrangeira que aparentava carência. Seus soldados a trouxeram até ele e o rei a olhou com intensidade:

— Já experimentaste das delícias desse reino, mulher estrangeira?

— Eu me alimento de pão e água, senhor, mas uma vez, uma única vez, provei do vinho e uma vez, uma única vez, experimentei restos de frutas.

— Pois que venha a meu castelo para o banquete.

E ordenou aos soldados que a preparassem.

A mulher chegou ao banquete e se sentou entre os nobres que lá estavam. O rei anunciou:

— Senhores, senhoras, esta estrangeira vive de pão e água em nossas terras. Uma única vez provou vinho, uma única vez provou frutas.

— E como foi esta experiência, pobre maltrapilha?

— O vinho me deu tonturas. As frutas, sinto dizer, já estavam passadas e só fiz regurgitá-las.

Na assembleia que se formou em torno do discurso da moça se fez ouvir um sonoro “oh”.

— Vês aqui nosso bom vinho, andarilha? Vês aqui nossas frutas frescas, andarilha?

— Sim, senhor. Vejo e anseio por desfrutar de vossa cordial hospitalidade.

— Então, foi para comer de minhas despensas que aqui vieste, mendicante?

— Por que não, viria senhor? Por certo são as mais saborosas frutas do reino e o vinho da melhor safra.

— E ainda ousas se proclamar com crítica de nossa gastronomia?

— Ora, senhor, como duvidar da qualidade de sua terra, quanto mais da oferta da mesa de sua casa?

— Soldados, levem-na.

— Mas senhor, que mal eu fiz?

— Se ainda não compreendeste, em justo tempo receberá minha notificação.

POSFÁCIO

Passaram-se muitos anos. A mendicante nunca recebeu a prometida notificação. Continuou vivendo de pão e água, sem jamais compreender qual de suas palavras ofendera o imperador.

Se, porventura, algum ilustre leitor houver entendido o motivo de sua condenação, peço-lhe a caridade de lhe escrever. Ela apreciaria muito morrer sabendo do que, afinal, era culpada.

Observação do Autor

A alternância de pronomes em 3a pessoa e verbos em 2a é intencional.

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