- Gênero: Drama | Público Jovem Adulto
Até que os novos donos da terra foram generosos. Permitiram ao povo despedir-se do Natal.
Após a tomada do poder pelos Essenciocratas, todas as comemorações comerciais foram banidas. Páscoa, dia das mães, dos pais, das crianças, de qualquer profissional, aniversários, tudo, absolutamente tudo, proibido.
Sobraram algumas celebrações históricas e religiosas que pouco, ou nada, dependiam de comércio.
Os shoppings fecharam, as ruas como a 25 de Março, pelo país, não tinham mais movimento, as grandes empresas de venda de importados sucumbiram, lojas online tornaram-se obsoletas, agências de publicidade perderam a razão de ser.
Nada faltava. Mas nada se comercializava com a ferocidade de antes, na tentativa de salvar o planeta.
Muitos passaram a ter hortas, crianças inventavam brinquedos, roupas se tornaram mais duráveis, muitas feitas sob medida na costureira do bairro, carros foram ficando raros. Alarmistas diziam que o mundo tinha regredido 100 anos em 10 meses, mas a vida seguia tranquila, apesar das manifestações e de alguns noticiários apocalípticos.
Chegado o Natal, o povo todo foi convocado para uma festividade na praça principal de suas cidades. Enfeites, árvores, bolas, pisca-pisca, meias, roupas de papai Noel, tudo seria incinerado. Nada que lembrasse a festa comercial poderia permanecer intacto, embora as celebrações religiosas pudessem ocorrer sem problemas.
Também em Muiquacitanga, no meio do semi-árido, as pessoas foram à praça despedir-se de seus adereços. A fumaça, cheirando a plástico queimado, era vista de longe. Alguns aplaudiam, outros choravam. Os mais devotos se aproximavam da grande fogueira e nela se despediam, hesitantes, de todos os seus enfeites natalinos.
A derradeira cremação era simbólica. Só queimava o que não era passível de reciclagem. O restante ia para um grande depósito para virar contêineres.
Um líder bradou: agora, celebrem o último Natal! Padres e pastores correram para suas igrejas, mas o povo se entreolhou, não sabendo muito bem como proceder. Algumas senhoras principiaram uma procissão que não tardou a se desmantelar. Marcolino, como a maioria daquele povo, voltou para casa.
Assim que chegou, botou o olho num cartão de Natal escorregado para debaixo da poltrona. Como não tinha ido para a fogueira? Era perigoso, mas não queria se desfazer da preciosidade.
A árvore com enfeites, casinhas iluminadas no meio da neve, Papai Noel voando no trenó puxado por renas, coro de crianças, presentes brilhantes nos jardins, bonecos de neve… Tudo foi desmembrado em pequenas peças, como um quebra-cabeça e muito bem escondido num vão da parede. Um dia ele mostraria a seus netos o que chamava de verdadeiro Natal.
Publicado inicialmente em versão adapatada na antologia CONTOS, CRÔNICAS E POEMAS DE NATAL, pela Off-flip, em 2024.