Graziela Giusti Pachane

CORPO CELESTE

  • Gênero: Comédia | Público Jovem Adulto

— E aí, como tá? Separação é ruim demais, tô preocupada com você.

— Ai, mana. Decepção total. Você sabe. Ele é intenso, e quando decide, é pra abalar geral. Ontem, ele foi muito ríspido, nada a ver com o “minha deusa, minha rainha, senhora da criação”, do começo. Foi ofensa atrás de ofensa, um despejo de negatividade.

— Por que os homens são assim? Se empolgam com a novidade, exploram, usufruem de tudo que satisfaça sua cobiça, nos esgotam, daí abandonam, menosprezam, agridem…

— Pois é, me iludi. Fui generosa, ofereci tudo que podia. Sei que tenho meus problemas, meus momentos ruins. Mas achei mesmo que a gente podia criar uma relação harmoniosa. Putz. Tava ali, na cara, a pequenez da criatura, o quanto é sombrio… e eu…

— Não se culpe! Você é linda, iluminada, tão cheia de vida, de possibilidades!

— Obrigada, amiga! Ontem foi cruel, viu. Ele disse que quando me espiava só de longe, me achava chata, mas resolveu dar uma chance porque eu parecia atraente. Aí, falou que minhas fotos são fake, pura montagem, que de perto tenho um lado obscuro, encubro minhas falhas, que sou enorme, estufada! Pra piorar, completou que antes eu era bem cuidada, emanava saúde, e agora, tô devastada, ressequida. Até de eivada me chamou.

— Tô chocada, que falta de tato, que absurdo! Aquele Plutão. E você não reagiu?

— Ah, falei que ele era lento, frio, distante, inacessível… E tóxico. Acredita que ele retrucou que eu sou oxigenada, sazonal, instável. Ah, meu sangue foi subindo, comecei a me tremer toda, brotaram umas erupções. Aí foi vendaval, tsunami, furacão. Botei ele pra fora sob raios e trovoadas. Quero ele longe!

— Boa! É isso aí, nada de deprê, hein. Ele foi rebaixado a ex e não orbita mais no nosso círculo! Se bobear, já deve estar atrás de algum rabo de cometa por aí.

— Que nada. Só pensa em Marte. Só fala de Marte. Projeto pra Marte. Um saco.

— Olha, se decidir se aventurar, tenho um colega… Inteligente, simpático. Dizem que é quente! Hahaha! Pros seus pontos de vista, talvez seja meio retrógrado, mas…

— Esquece! Agora, vou ser só eu e a Luinha em paz! Ai, menina, tô sentindo se formar um ciclone extratropical aqui dos bravos. Acho que tenho que ir.

— Tranquilo. Eu vou relaxar um pouco, fazer umas massagens. Tô uma pedra de tensa.

— Beleza, te vejo amanhã, cedinho ou à noite. E como sempre, radiante! Beijo.

Observação do Autor

Texto publicado anteriormente na coletânea Terra da Off-flip.
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