Para além do banheiro

  • Gênero: Terror | Público Adulto

Suas pernas balançavam no ar graciosamente e mal tocavam o chão. Com um vestidinho cheio de margaridas, cabelos cacheados, bochecha rosada e olhos meigos, Carolina parecia mais doce que um algodão doce e toda aquela doçura não combinava de modo algum com aquele lugar — quase sempre bem mal frequentado por uma corja muito diversificada.

Sentada há horas naquela cadeira, estava impaciente e sua barriga já denunciava a fome típica de quem estava em jejum. Enquanto a pobre menina estava ali, sozinha na delegacia local, seu destino era incerto e, os policiais vasculhavam toda a sua casa em busca de provas que revelassem quem havia cometido aquele assassinato brutal. Alguns vizinhos entravam na sala ao lado para contar tudo o que sabiam sobre a família da menina, mas nada de concreto havia sido revelado até o momento. Ao que tudo indicava, Carolina tinha a família perfeita: uma mãe amorosa, um pai trabalhador e presente e, um cachorro fiel e companheiro. Nunca haviam se envolvido em escândalos ou nutrido intrigas com a vizinhança. Pelo contrário, se davam muito bem com todos. Já a menina… Era um encanto. Esbanjava simpatia por onde passava e só queria saber de brincar, assim como toda criança. E, naquela manhã nada havia sido diferente…

Com um salto da cama, assim que os raios de sol transpassaram a janela da casa de Pamela, a quem carinhosamente chamava de Pam, Carolina acordou e chacoalhou a amiga para que também acordasse. Era domingo e não havia tempo a perder, sabia ela. Mal escovou os dentes e foi até a janela, de onde avistou seus amigos na rua brincando de pique esconde. Ela e Pam desceram as escadas rapidamente e quando a mãe de sua amiga perguntou se queriam um chocolate quente, o “Não” simultâneo das meninas foi tão sincronizado como uma dança de sapateado. Dormir na casa da amiga tinha lá suas vantagens, afinal, na casa dela seus pais jamais a deixariam sair sem antes se alimentar.

Em menos de dois minutos já estavam com as outras crianças. Como elas chegaram por último, uma delas deveria ser a pegadora, então, decidiram no par ou ímpar quem assumiria este papel e, dessa vez, Pam perdeu — se dirigindo ao poste para contar até trinta, com os olhos fechados. Todos começaram a correr para se esconder e Carolina foi até sua casa. Ela pensava em se abrigar atrás do carro do seu pai, que naquela manhã estava fora da garagem e diante ao portão. Porém, seu cachorro começou a latir de felicidade assim que a viu. Ela se apressou em sair dali, pois seus pais poderiam acordar e pedir para que ela entrasse, acabando assim, com toda a brincadeira.

Foi quando, prestes a findar a contagem regressiva de Pam, passou em frente ao casarão da rua. Um local isolado por dois terrenos — que o cercavam tanto pela direita, como pela esquerda — e fechado há mais de dez anos; totalmente abandonado. Carolina forçou o portão, que enferrujado, facilmente se abriu. Pensou em se esconder no jardim, no entanto, aquele não lhe parecia um bom esconderijo. Foi aí, que a porta do casarão se abriu, rangendo e fazendo o som ecoar em seu interior. Os olhos da menina se arregalaram e se voltaram para a porta, que não revelava detalhe algum do interior da casa — tamanha era a escuridão. De imediato, ela jamais pensaria em entrar, mas ao ouvir a contagem de Pam chegar ao número vinte, lá parecia ser o melhor esconderijo de todos. Um lugar perfeito!, pensou. Correndo até a entrada e subindo alguns lances de escada, mergulhou naquela imensa escuridão.

Depois de largas passadas, já estava no meio de uma grande sala. Como as janelas haviam sido fechadas com ripas de madeira, apenas alguns fachos de luz adentravam ao local. Tudo era velho, sombrio e sujo. Seus olhos avistavam silhuetas do que parecia ser um sofá perto da parede, uma poltrona mais ao canto e cortinas rasgadas em algumas janelas… Os filetes de sol também iluminavam uma mesa de centro, onde havia um cinzeiro — que acreditem se quiser, tinha um cigarro acesso. Quando a menina viu a fumaça sair do cigarro, seu coração disparou e, no mesmo instante, ouviu a porta do casarão se fechar. Tomada por medo e desespero, começou a rodar em torno de si buscando uma saída. Nada viu, mas ouviu um click vindo do corredor. Virou-se e viu que uma luz havia se acendido. Estava fraca e dava para escutar um barulho de lâmpada zumbindo, semelhante a um curto circuito. Que som é esse?  Pensou, enquanto caminhava lentamente até o local. A porta estava entreaberta, permitindo-a ver um piso branco e limpo e parte de um vaso sanitário. Aquele cômodo destoava de todos os outros, que pareciam estar caindo aos pedaços e sem iluminação alguma…

— Você pode se esconder aqui! — disse uma voz de menina vinda do banheiro. — Eu também estou brincando de me esconder.

Carolina titubeou em entrar. Não sabia se era a coisa certa a ser feita.

— Vem logo! Vão te achar se você ficar aí.

No entanto, ela não se sentia confortável ali, mas estar escondida com outra garota, dentro daquele casarão assombroso, parecia ser sua melhor alternativa. À vista disso, entrou. A lâmpada do banheiro estourou e a porta se fechou de modo abrupto, abafando o estridente grito da menina, que ecoou rebatendo nas paredes daquele cômodo.

Do lado de fora, Pam ainda procurava sua amiga e ficou surpresa ao vê-la sair do casarão e entrar na casa dela, sem ao menos fazer o costumeiro carinho no seu cachorro — que rosnava, ao invés de balançar o rabinho como sempre. Não falou nem o porquê tinha parado de brincar. Sequer olhou para os seus amiguinhos.

De todos, o depoimento de Pam era o único que contava algo que de fato havia ocorrido naquela manhã. Por ser uma criança, os policiais só o levaram em consideração porque sua mãe confirmou que Carolina havia dormido em sua casa e havia saído junto com a filha para brincar na rua. Contudo, era natural pensar que ela retornaria para a casa… E o jeito de Carolina relatado por Pam — de que a amiga passou por ela, fingindo nem a conhecer — foi ignorado, afinal de contas, crianças costumam se desentender quando brincam.

Parecia que todos os vizinhos haviam sido interrogados, então, o policial caminhou até o corredor para dispensá-los. Naquele momento, uma senhora manca, de cabelos brancos e com o semblante de quem já havia vivido muito, surgiu no final do corredor e disse que sabia o que havia acontecido. Todos se entreolharam e a senhora, ao passar por onde a criança estava, arrepiou-se ao sentir a presença do mal. Virou-se seguindo em frente e, assim que entrou na sala do delegado, sentou-se — mostrando toda a dificuldade do que é sentar quando já se tem uma idade avançada. Falou:

— A menina. Foi ela quem matou os pais.

O delegado ouviu aquela acusação e, perplexo, fez um gesto para que o policial conduzisse aquele depoimento, se retirando do local e rindo da velha. Assim sendo, restou ao policial questioná-la. Perguntou se era somente aquilo que tinha a falar e a indagou, sobre como ela conseguiria fazer tal coisa — visto que a forma brutal dos assassinatos demonstrava que o criminoso seria alguém muito forte, bem diferente de uma menininha. Como não obteve uma resposta imediata, dispensou aquela senhora que, ao invés de sair, permaneceu ali prosseguindo com o seu depoimento.

— Aconteceu comigo, policial. Olhe o meu braço e veja estas cicatrizes. — disse levantando a blusa e mostrando marcas profundas de cortes. — Aconteceu comigo. Na verdade, com a minha filha. É uma longa história… Melhor o senhor também se sentar.

Ainda sem entender o que significava o aconteceu comigo, sentou-se para ouvir.

— Eu sei que não deveria ter invadido aquela casa, mas ela estava abandonada. Meu marido e eu entramos e arrumamos tudo. Ele achou algumas fotos, talvez fossem pessoas que haviam morado ali… E no meio delas, encontrou a de uma menininha tomando banho na banheira. A foto parecia antiga demais, estava toda amarelada. Dava para ver no cabide, ao lado da banheira, as roupas penduradas — ultrapassadas demais para uma criança, mas talvez fosse moda da época… O fato é que meu marido amou a decoração do banheiro, um luxo! Insistiu pra gente fazer igual… Ficou obcecado! Sabe, azulejos com arabescos, banheira com pés Cheshire… Não sei se você conhece, mas é uma espécie de réplica de banheira do século…

— Senhora, eu não me interesso nenhum pouco por decoração e nem vejo relação nessa história com o caso. Se realmente tem algo de importante a dizer, por favor, se abstenha a falar somente o que for relevante.

— Vocês sempre têm pressa, que coisa! Tudo bem… Bom, quando eu e minha família já estávamos morando lá, minha filha começou a ficar estranha de repente. A Marcela, minha miúda, era uma criança adorável… Mas começou a ficar com medo de mim e do pai. A gente não entendia o motivo, nem batíamos nela! A gente educava sempre na base da boa e velha conversa, sabe como é, né? Só que ela disse que sua amiga, uma tal de Maria, falou que nós bateríamos nela até ela morrer. Que não deveria confiar na gente…

— Mas de onde essa Maria tirou isso? Essa ideia? Elas estudavam juntas?

— Relaxa aí com as perguntas, policial! Eu fui até a escola, na época, e não havia nenhuma Maria na sala de aula da Marcela. Na rua também não… Por fim, a muito custo, ela me contou que encontrava a Maria no banheiro da nossa casa. A princípio, eu e meu esposo nos assustamos… Achamos até que se tratava de uma amiga imaginária. Nada demais…

— Se não é nada demais, por que a senhora está me contando?

— Por favor, deixe-me falar!… Pois bem, encontramos numa escrivaninha da casa, durante uma faxina, uma pasta com vários papéis. Poderia ser interessante saber o que tinha ali, afinal, nossa intenção era tomar posse da propriedade abandonada e aqueles documentos poderiam ser importantes. Então, a gente começou a ler e lá estava ela: Maria. É difícil dizer, mas… Era um pedaço de jornal, uma reportagem. Dizia que ela foi morta na banheira da casa…

— Espere! — interrompeu o policial. — Jorge, levante tudo o que houve naquele casarão e me traga. Principalmente este fato, envolvendo essa criança — ordenou o policial ao assistente, voltando, em seguida, seu olhar de impaciência e de desdém à senhora. — Pode continuar, minha senhora.

— O pai matou a menina na banheira. Ele era violento e ela se escondia dele no banheiro. Um dia ele perdeu a razão, entrou no banheiro e a afogou, sorrindo de felicidade durante o ato.

— Na reportagem dizia que ele estava sorrindo ou a senhora está inventando?

E a mulher encarou o policial, expressando seu descontentamento por ter sido interrompida novamente. Então, prosseguiu ignorando a pergunta:

— Acontece que o espírito dessa Maria nunca descansou. Ficou preso no banheiro, causando verdadeiros incômodos. Falava com a minha Marcela. Começou a fazer a cabeça dela, dizendo que seu final seria o mesmo e, que se ela se sentisse ameaçada a deveria procurar no banheiro, pois ela a ajudaria… E foi exatamente isso que aconteceu. Certo dia, nós brigamos com nossa filha, pois ela mentiu para nós. Meu esposo, que tinha acabado de chegar do trabalho e estava nervoso devido ao dia exaustivo, ficou muito bravo quando soube da mentira. Retirou o cinto da calça e foi atrás dela. Ela correu e entrou no banheiro, trancando a porta. Ele ficou possesso de raiva e arrombou a porta. Foi aí, que ao entrar com toda a sua fúria, ela se fechou. Bem forte! Os quadros do corredor caíram e ouvi um barulho de espelho se quebrando… Tudo aconteceu muito rápido. Bati na porta do banheiro três vezes até que ela se abriu, sozinha… Tinha sangue por todo o piso. Foi horrível! Meu esposo estava dentro da banheira, com o pescoço cortado e vários cacos do espelho fincados pelo corpo. Eu tentei socorrê-lo, mas era tarde: estava morto. Nesse momento, ouvi uma risada demoníaca atrás de mim. Era a Marcela, sentada em cima da pia, ao lado da cuba do banheiro. Ela balançava os pés e ria, com uma navalha na mão.

— Sua filha matou seu esposo?

— Sim, quer dizer, na verdade não. Enfim, quando eu a vi pedi que me devolvesse à navalha e ela balançou a cabeça, negando. Eu parti pra cima dela, pois senti que ela faria isso comigo se eu não o fizesse primeiro. Ela estava com uma força descomunal e me arremessou na banheira, pulando em cima de mim. Cortou-me. As cicatrizes que te mostrei são as marcas daquele dia de terror. Implorava para ela parar… E nada! Estava decidida em me matar. Enquanto ela me enchia de cortes, consegui pegar o revólver que estava na cintura do meu esposo. Ah! Antes que você me interrompa de novo, ele era segurança e tinha permissão para usar arma — só pra você saber. Aí eu atirei nela.

— Espera aí, você matou sua filha?

— Só atirei nela, mas não pra matar. Aquilo (ou aquela coisa) não era a minha filha. Eu senti isso. Depois tive essa confirmação… Quando ela estava no hospital, internada, ela falou comigo. Disse que se chamava Maria. Estava prestes a morrer. Também falou que não se esqueceria de mim e voltaria para matar todos os pais. Aí o coração dela parou naquele momento. Elas se foram… A minha filha e a Maria. Eu achava isso, até saber sobre o que houve hoje. Foi ela, aquela menina sentada ali! Sinto nela o mesmo mal que sentia na minha Marcela.

O policial ficou calado. Não acreditou nas palavras daquela velha senhora, todavia, o assistente entrou na sala com a reportagem citada pela mulher e uma pasta, repleta de atrocidades que haviam ocorrido no casarão. Ao ver todos os casos, ficou petrificado. Ainda sem acreditar totalmente em tudo, correu até a sala em que Carolina estava.

Ao entrar, não viu a menina. Saiu atordoado, perguntando sobre o seu paradeiro e foi informado que ela estava indo embora, sendo encaminhada para um orfanato. O policial desceu as escadas e viu o carro saindo. Nele, estava a criança que procurava. Correu para alcançá-lo; mas como não era atleta correr lhe custava muito!

— Carolina, Carolina! – gritava ofegante.

Ao que parecia, ela não o ouvia.

Já estava esbaforido quando o semáforo no final da rua ficou vermelho, fazendo o veículo parar. Desta forma o alcançou.

— Carolina! – gritou mais uma vez, bem alto, da calçada. Esperançoso para que ela o ouvisse, já que a janela do carro estava aberta.

No banco de trás do veículo, a menina mirava o vazio. Alheia aos acontecimentos, olhava apenas o assento do condutor. E, quando o sinal estava prestes a abrir, com muita descrença, ele resolveu gritar:

— Ei, Maria!

E ela olhou para ele, ao mesmo tempo em que o semáforo ficou verde e o veículo se foi.

O policial tentou achar o endereço do orfanato, mas tudo relacionado à menina havia desaparecido. Até a pessoa que havia informado que ela fora para um orfanato não se lembrava de ter dito aquilo. Já aquela senhora, depois daquele longo e amargo dia, tomava um banho bem quente em sua casa para relaxar, quando um click veio acompanhado de uma escuridão. A luz foi desligada e, antes que a translúcida água no chão fosse manchada de vermelho, ouviu aquela voz, da qual jamais queria se recordar, sussurrando aos seus ouvidos “Eu não me esqueci de você”.

Observação do Autor

⚖️ Este conto é de autoria de Aline A. Siqueira, com revisão gramatical de Rosângela Martins e Rodrigo Guilocos; publicado na antologia "(In)cômodos — Onde o mal habita" (SAL, 2019). Sua cópia sem a permissão do autor configura uma forma de roubo (plágio). Crime, conforme Art. 184 do Código Penal.

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