A origem da Felicidade

  • Gênero: Fantasia | Público Infantil

O céu parece calmo para quem o vê, mas, para nós, fadas dos sentimentos, é uma incessante corrida contra o tempo: pega barril, abre, enche, fecha, voa e vai sem deixar sentimento algum sobrar. A gente até se tromba em meio a esse caos, e aí vai pó para tudo quanto é lado: mistura de amor com tristeza, raiva com dor… E quem acaba sentindo os efeitos dessa loucura são vocês, pobres mortais.

As regras são simples: “Levar os sentimentos, jamais se revelar e nunca largar o barril”, entretanto, sou nova no ramo. Gosto dos humanos! Eles me instigam e adoro lançar sobre eles o meu pó, que é o da felicidade. Derramo-o mil vezes ao dia em distintas pessoas. Se sou rápida? Dizem que não, e replico falando que sou nova nisso. Confesso a vocês que minha “lentidão” é devido a eu quebrar as regras, separando uns minutos para observar um humano em especial: o garoto da padaria que vive com o avô, feliz por natureza.

Debruço-me na janela da cozinha da padaria e o observo. O garoto pequeno mal consegue olhar sobre a mesa, se lambuza de farinha e açúcar, imitando os movimentos do avô, e diz fazer doces — não sei o que é isso, mas faz muita sujeira e todos comem. Intriga-me o mistério da sua felicidade, que já existe quando eu chego e é maior quando eu parto; intriga-me de tal forma que largo o barril para apreciar a beleza do seu sorriso, de tamanha simplicidade.

Certo dia, enquanto o via, de longe ouvi o bater das asas de outra fada. Escondi-me atrás do vaso de violeta, pois não havia mais tempo de sair sem ser despercebida. Era a fada da tristeza, ela despejou seu pó sobre o avô do garoto e saiu. Quando ergui meus olhos, avistei aquele senhor grisalho, ao desligar o telefone, entrar em prantos. Foi tão rápido e tão triste! Não poderia deixar aquilo continuar… Peguei o meu barril, até lá voei e despejei felicidade nele, porém o choro continuou, então, o fiz novamente e desta vez aumentou. Repeti a dose e, num momento de desespero, joguei tudo: ele se afogou de vez em seus sentimentos e se calou para sempre. Vi dele sair a áurea da vida e não compreendi o que houve. Depois disso, um grande desespero tomou o local.

Retornei para o céu e, ao chegar, me deparei com a fada-mãe me aguardando. Ela me olhou e disse que tudo viu e sentiu. Ela realmente tem esse poder, e de certo não havia como negar os fatos, contudo, revelou o que realmente houve. Parte do que ela disse eu sabia, porém, a outra, jamais imaginaria. No desespero de me esconder, não percebi que deixei o meu barril perto do vaso e, quando a fada da tristeza saiu, ao parar para apreciar as violetas que têm a mesma cor do seu cabelo, levou consigo o meu barril, deixando ali o dela, e eu, num gesto desesperado de querer levar a felicidade, matei aquele senhor de tristeza.

Por quebrar as regras fui punida de forma severa: fui incumbida de levar a tristeza. E, como se não fosse o bastante, tinha que levá-la justamente ao garoto da padaria. Assim eu fiz, transformando aquele sorriso em pranto, um dia após o outro. Suas lágrimas mesclavam-se aos doces, e eu não aguentava mais continuar fazendo aquilo… 

Uma gota saltou dos meus olhos. Translúcida, vi nela o reflexo da minha essência: a felicidade. Foi aí que eu soube o que fazer! Revelei-me a ele, infringindo todas as regras. Houve um grande estrondo nos céus, e pude ouvir várias asas batendo e vindo em minha direção. Fui rápida como nunca e, vendo aqueles olhos mortais cheios de lágrimas me fitarem, dei minha vida, voando até ele e rasgando-me por inteira. Meu corpo de luz se abriu, desintegrando-se e preenchendo todo o local com fagulhas de felicidade, afinal, eu sou a felicidade e dela fui feita.

O mundo, por um instante, parou. Nenhum ser jamais havia visto tal coisa, tal gesto! Logo, ouvi a voz do Universo, comovido, me presentear com a realização de um último desejo. Sem titubear, pedi que minhas fagulhas fossem eternas e penetrassem em todos os doces do mundo, sendo fonte de felicidade aos humanos para sempre.

E assim Ele o fez e faz até os dias de hoje.

Observação do Autor

⚖️ Este conto é de autoria de Aline A. Siqueira. Premiado no concurso Beleza e Simplicidade em Contos e Crônicas (2019) e publicado pela Editora Jogo de Palavras. Sua cópia sem a permissão do autor configura uma forma de roubo (plágio). Crime, conforme Art. 184 do Código Penal.

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