O Conto e os seus finais

Como finalizar o conto de maneira a causar impacto no leitor?

Existem dois tipos de finais:

Final conclusivo e surpreendente

A trama é fundamental e o autor procura de alguma maneira surpreender o leitor no final ou gerar um efeito específico, ou seja, um efeito que não seja ambíguo.

Exemplo “Black Cat” de Poe.

O tipo de final conclusivo desenvolve-se de forma lógica, com eventos predominantemente aparentes, que acontecem na camada visível da história (sucessão de acções, ou seja, foco no enredo).

Exemplo de Bertolt Brecht:

«O senhor K., falando do péssimo hábito de deixar passar em silêncio as injustiças, contou esta pequena história. Um transeunte quis saber de um rapazinho em lágrimas a razão de suas penas.
— Eu tinha nas mãos dois marcos para pagar uma entrada de cinema — disse o menino —, quando chegou um garoto mais forte do que eu e me arrancou um deles das mãos.
E apontou um jovem, que ainda podia ser visto a uma certa distância.
— E você não pediu socorro? — perguntou o passante.
— Claro — respondeu o menino, soluçando ainda mais forte.
— E ninguém o ouviu? — indagou ainda o estranho, acariciando-o amavelmente.
— Não… — soluçou o garoto.
— Quer dizer que você não tem capacidade vocal, que o habilite a gritar com mais força? — interrogou o homem. — Nesse caso, passe já pra cá esse outro marco!
Tomando-o, meteu-o no bolso e continuou tranquilamente o seu caminho.»

Sem essa reviravolta no final, a surpresa trazida pela acção inesperada da personagem, o conto não teria nenhum tipo de impacto.

Final inconclusivo e misterioso

Coloca o foco narrativo no interior das personagens em detrimento da cadeia de acções. Anton Tchekhov desenvolveu este novo modelo para o conto, que poderia ser expresso com a máxima que um bom conto precisa de ter o mínimo de enredo e o máximo de emoção.

O investimento neste tipo de desfecho será criar atmosferas e registar situações abertas, mais ambíguas e com ambivalência de sentimentos das personagens, que não se encerram no final dos relatos.

O leitor fica com aquela sensação, um pouco como na “Missa do Galo” do Machado de Assis, de não saber muito bem o que aconteceu ali e o porquê daquele momento ter ficado guardado na memória do protagonista.

Chegamos assim à conclusão que, no conto é melhor não dizer o suficiente do que dizer demais, por isso um recurso utilizado para este tipo de final, é a sugestão. Em vez de dizer explicitamente, o autor deve optar por sugerir, e assim manter a intriga e sustentar a tensão.

O conto deve terminar com uma espécie de silêncio misterioso, ficar a pairar no ar, como uma sensação que o leitor não consegue descrever. Este tipo de final vai exigir um leitor mais atento às entrelinhas.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»«««««««««««««««««««««««««««««««««««

Publicado originalmente em Os Rabiscos da Geadas

Contos Relacionados