O Bruxo do Cosme Velho

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu em 1908. Filho de um brasileiro com uma açoriana, teve uma irmã mais nova, que faleceu com quatro anos. Machado ficou órfão de mãe muito cedo. Por isso, foi criado com sua madrasta. Assim, sem recursos para estudar, ele tornou-se autodidata e com apenas 14 anos já publicou um soneto: “À Ilma. Sra. D.P.J.A.” no Periódico dos Pobres.

Machado trabalhou como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional e depois como revisor no Correio Mercantil. Inclusive, ele também escrevia para a revista O Espelho, a Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias.

Em 1864, com 25 anos, publicou o seu primeiro livro de poesias, Crisálidas.

Em geral, o grande escritor é mais conhecido por seus livros realistas, marcados pela objetividade, ironia e crítica social. Mas também escreveu obras românticas que apresentam idealização e discutem a ascensão social. Memórias póstumas de Brás Cubas é um de seus romances mais conhecidos.

É incrível a extensa obra machadiana! Foram: dez romances, 205 contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas.

Por isso, foi considerado um dos mais importantes escritores e o principal representante do realismo brasileiro.

O Bruxo do Cosme Velho

Machado de Assis também ficou conhecido por “Bruxo do Cosme Velho”. O epíteto — termo de origem grega que significa acrescido, posto ao lado — ganhou notoriedade no meio literário a partir de 1958. Foi quando Carlos Drummond de Andrade publicou no jornal “Correio da Manhã”, o poema “A um bruxo, com amor”. No poema, o poeta fez referência à casa (número 18) da rua Cosme Velho, situada no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde Machado de Assis morou.

O poema de Drummond foi uma homenagem, reconhecendo-o como um dos maiores mestres da literatura e ajudou a popularizar o epíteto.

No entanto, a origem do apelido é um pouco mais curiosa.

Lenda urbana ou realidade?

Dizem que, quando morava no Cosme Velho, Machado de Assis queimou algumas cartas e outros papéis em um caldeirão no sobrado onde vivia. Então a vizinhança viu a fumaça saindo do caldeirão e começou a imaginar coisas. Que tipo de bruxaria ele estaria fazendo?  Logo os rumores começaram a se espalhar entre os vizinhos, que o tacharam de bruxo.

Quem foi o autor da alcunha?

Segundo o jornalista, escritor e mais recente biógrafo de Machado de Assis, Cláudio S.Soares:

“Antes de Drummond, o poeta gaúcho Augusto Meyer já havia usado o tal apelido, mas também não era o criador do epíteto. Ao ser consultado por Drummond, Meyer lhe contou que outro gaúcho, o crítico literário Moysés Vellinho, em ‘um momento de inspiração’, já o tinha registrado em um ‘antigo ensaio integrado em livro’.

O livro era Letras da província, lançado pela Livraria do Globo, de Porto Alegre, em 1944. Na p. 46, o crítico comenta (sobre o próprio Augusto Meyer, um “machadiano” ferrenho):

‘Convicções novas rondavam-lhe o espírito, impondo-lhe o dever de penitenciar-se de um pecado tão gave quanto fora grande a delícia que nele sentira – o pecado de haver mergulhado os sentidos e o pensamento nos perigosos filtros que o bruxo do Cosme Velho sabia propinar com arte sorrateira e amável.’

E o primeiro a divulgar o apelido na imprensa foi o jornalista alagoano Valdemar Cavalcanti, em pelo menos três ocasiões, na coluna literária de O Jornal, nos últimos meses de 1958. A partir daí, o “Bruxo do Cosme Velho” passou a se confundir com o nome de Machado de Assis.” (trecho do portal Brasil de Fato em Análise | A invenção do “Bruxo do Cosme Velho” | Opinião (brasildefato.com.br))

Histórias à parte, será que Machado de Assis não foi realmente um bruxo? Ou um mago das palavras? Afinal, a genialidade do escritor na construção de cada texto parece até resultado de intensa bruxaria.

Trechos do poema “A um bruxo, com amor”, de Carlos Drummond de Andrade:

Em certa casa da Rua Cosme Velho

(que se abre no vazio)

venho visitar-te;

e me recebes na sala trajestada com simplicidade

onde pensamentos idos e vividos

perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite.

 

Outros leram da vida um capítulo,

tu leste o livro inteiro.

Daí esse cansaço nos gestos

e, filtrada, uma luz que não vem de parte alguma

pois todos os castiçais estão apagados.

(…)

Todos os cemitérios se parecem,

e não pousas em nenhum deles,

mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade,

a descobrir a fenda necessária;

onde o diabo joga dama com o destino,

estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,

que resolves em mim tantos enigmas.

 

Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas,

eternas exéquias e aleluias eternas,

e chega ao despistamento de teu pencenê.

O estribeiro Oblivion bate à porta

e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno.

Dás volta à chave, envolves-te na capa.

(…)

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