O vazio não existe. É sempre cheio.
Cheio de coisa invisível
Que a gente joga pra lá.
Só não enxerga.
Lá tem dor, tem mágoa, amargura,
Sentimento de inferioridade.
Tem amor, alegria, ternura.
Às vezes, aparece até
Um pouco de felicidade.
Mas vazio, vazio mesmo, não existe.
Tá cheio de pensamento, emoção,
Sentimento, culpa, raiva, remorso, inveja.
Coisa que a gente finge que não vê,
Tem gente que finge mesmo
Que não sabe nem o que é.
Outros dizem que lá dentro
Só tem coisa boa:
Força, esperança, perdão
E um grande bocado de fé.
Será verdade?
Quando o vazio transborda,
De uns vem grito, de outros lágrima,
Xingamento, até maldição.
Mais raro é palavra de amor,
Incentivo, gratidão.
Mas isso é vazio de gente.
Que é bicho complicado.
Fico me perguntando como será
Vazio de bicho bicho
Que é criatura simples.
Poema publicado inicialmente na Antologia Versos do Invisível, publicada pela Editora Hope (Araras, 2026. Organização de Jéssica Milatto)