Joseani Vieira

O que faço, Doutor?

Eu vim aqui porque preciso de ajuda.

Estou doente com as palavras!

Elas estão em todo o canto

Na mente, na boca, nos olhos!

Em trama…

Me dominam os gestos,

se jogam aos meus pés!

Grudam nos meus sentimentos

fazendo com que eles

se tornem transparentes

com a força de mil mãos!

Eu sofro, doutor,

de excesso de palavras.

E elas correm contentes 

capturam minhas ideias

alimentam-se dos meus sonhos.

Riem de mim, doutor,

quando choro impotente!

São as palavras que calo,

as mais doloridas…

Elas me deixam muito doente…

O que faço, doutor,

com essa doença das palavras?

Me curo na prosa?

Saro com poesia?

Aprisiono em crônicas as mais frequentes?

Conto as que escrevo todos os dias,

Ou as despejo num romance?

Quem sabe num livro de fantasia?

No auge dos meus surtos

elas saem emboladas

se esparramam sem cuidado

em qualquer papel

Dançam nas telas,

brilham no escuro,

me traduzem sem dó,

me despem e me seduzem.

O que faço, doutor,

com essa doença das palavras?

Me curo na prosa?

Saro com poesia?

Dou saltos de alegria

ou me entristeço com a orgia

que se forma em minha mente?

Por favor, doutor,

me ajude! Estou demente!

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