Graziela Giusti Pachane

DOR DE VENTO

  • Gênero: Crônicas | Público Infantil

Alcides entrou em casa reclamando:

— Ai, tô com uma dor horrível na barriga, umas pontadas.

Alzira, a irmã mais velha, respondeu sem tirar os olhos do celular:

— Deve ser apendicite. Quando a mãe chegar, te leva no PS.

A mãe demorou a ceder. Achava exagero. Quando foi, o médico apalpou daqui, dali. Nada.
Diante da pressão firme, Alcides soltou uma sequência ruidosa de gases. Saiu com prescrição de remédio para prisão de ventre.

Em casa, riram:
— Ah, se todo problema fosse dor de vento… — disse o pai, sem levantar os olhos do jornal.

Virou solução. Sempre que Alcides reclamava:

— Peida que passa.

Valia para tudo. Unha encravada, febre, tristeza, cansaço. Alzira ainda decretou que era intolerância à lactose. Tinha visto no Google.

Com constrangimento repetido, Alcides foi ficando quieto. Meses depois, comentou com a irmã:

— Tô com uma dor forte faz tempo. Enjoo, inchaço…

— Só pode ser câncer — disse ela.

Como sempre exagerava, ele ignorou. Devia ser vento mesmo. Tomou o de sempre e se aquietou.

Numa manhã de julho, depois do café, vomitou sangue na pia. Chamou pela família antes de cair.

No hospital, exames, urgência, encaminhamento para cirurgia.

— Mas ele nunca reclamou — disse a mãe, incrédula. O médico não levantou a voz:

— Pelo estágio, esse tumor é antigo.

Alzira ficou do lado de fora, chorando.

— Entra ou vai embora — disse a mãe — Chorar aí no frio não adianta.

Do lado de dentro, Alcides já não falava.

Alzira hesitou, encolhida na friagem. O pai puxou-a pelo braço:

— Anda logo. Senão vai pegar dor de vento.

Conto originalmente publicado em versão adaptada pela Off-flip/2024

Receba notificações com as publicações do seu gênero favorito!
Se você quer ler e ficar por dentro de todas as publicações de seu gênero favorito, inscreva-se aqui

Conteúdo Relacionado