Eu não comecei esse processo porque quis. Comecei porque não dava mais pra ignorar.
Depois de escrever Quando a história cresce mais do que o formato, ficou claro que eu não estava lidando com um ajuste — era algo maior, mais estrutural. Então eu me dei um prazo: 7 dias pra salvar essa história.
Esse texto é o começo.
DIA 1
O que não funciona na minha história?
Existe uma frase que a gente escuta o tempo inteiro: “não se mexe em time que está ganhando”. E, olhando de fora, até faria sentido eu seguir isso. A primeira história tinha sido tiragem esgotada e o retorno dos leitores era bem animador! Só que, mesmo assim, eu sabia que ia mexer. Não só nela, mas em tudo.
O primeiro dia foi o mais difícil, não pelo volume de trabalho, mas pela sensação de estar lidando com um problema que eu ainda não entendia completamente. Eu sabia que precisava consertar alguma coisa, mas não tinha clareza do tamanho real disso. E quando você não sabe o tamanho do buraco, sair cavando é a pior estratégia possível. Primeiro, você precisa olhar.
Foi exatamente isso que eu decidi fazer.
Saí completamente do computador. Imprimi tudo o que tinha: os contos já escritos, anotações soltas, ideias de cenas, descrições de personagens, diálogos que surgiram no meio do dia e foram anotados às pressas… Peguei meu caderno, caneta, marca-texto e fui para o coworking do prédio. Pra minha sorte, estava vazio. Tinha uma mesa grande, uma lousa enorme e um silêncio que ajudava a expandir o pensamento. Era como se o espaço me desse permissão pra bagunçar tudo antes de organizar.
E eu baguncei.

Espalhei páginas, empilhei anotações, deixei tudo visível. Em pouco tempo, aquilo deixou de parecer apenas uma história e começou a parecer um quadro de evidências (tipo daqueles filmes de investigação policial) — com partes que funcionavam, partes que competiam entre si e outras que simplesmente não faziam mais sentido naquele novo contexto.
Comecei lendo, sem pressa e sem tentar corrigir nada de imediato. A ideia não era melhorar, era entender. E foi no final dos três primeiros contos que algo ficou evidente de um jeito quase incômodo: Elíade não respirava. Ele era intenso, ágil, cheio de ação; mas não tinha espaço para ser humano. Ele não parava, não sentia, não mostrava muito. Era 99% euforia.
Isso pode funcionar em algumas estruturas. Mas na que eu estava construindo agora, não.
Foi ali que eu entendi que o problema não era só estrutural. Era mais profundo. Estava nos personagens, nas pessoas que são as estrelas da história. Porque, no fim, não é a sequência de eventos que prende alguém numa história, são as pessoas dentro dela, como elas agem e reagem aos eventos. São elas que fazem alguém continuar lendo, torcer, se envolver.
A partir daí, o processo mudou de natureza. Eu comecei a marcar tudo. Grifei trechos, circulei cenas, puxei setas conectando ideias. Algumas páginas ficaram praticamente ilegíveis de tanto rabisco. Quando o papel já não dava conta, fui pra lousa e comecei a organizar melhor o que estava vendo. Separar ritmo de excesso, identificar onde faltava construção, onde havia atropelo, onde existia potencial que ainda não tinha sido explorado.
Ainda não era solução. Era diagnóstico.
Depois de algumas horas nesse processo, fiz algo simples, mas essencial: peguei outro papel e comecei a listar, de forma mais objetiva, tudo o que precisava ser ajustado. Não mais como impressões soltas, mas como pontos claros. Foi nesse momento que o “buraco” finalmente ganhou forma. E, por mais estranho que pareça, isso trouxe um certo alívio.
No meio disso tudo, ainda teve uma interferência externa que acabou reforçando uma percepção interna. Eu estava documentando o processo e trocando mensagens com leitores, e um deles comentou algo simples:
“Só não mata o Elíade e o Le Voulos, por favor.”
Eu ri na hora, mas aquilo ficou comigo. Porque, no fundo, eu percebi que já havia conseguido construir um vínculo. Aqueles personagens já significavam algo pra quem estava lendo.
Isso só confirmou o que eu já estava enxergando: não existe impacto real sem conexão. Não existe dor se não existe alguém ali pra sentir. E era hora de fazer os leitores sangrarem com essa relação.
Quando eu olhei no relógio, já era noite. O segurança apareceu por volta das 21h, curioso pra entender por que a luz ainda estava acesa. Eu ainda estava lá, cercada de papéis, com a lousa cheia e uma sensação completamente diferente da que eu tinha no início do dia. Eu não tinha resolvido o problema — mas, pela primeira vez, eu sabia exatamente qual era.
Antes de ir embora, organizei o próximo passo. Porque entender o problema é só metade do caminho; a outra metade é saber como agir sobre ele. E, considerando que eu tinha sete dias, improvisar não era uma opção. Eu precisava de direção.
A estrutura ficou assim:
- Dia 2: O erro que fez meu protagonista não ser sentido
- Dia 3: Toda ação tem um preço (e eu não estava cobrando nenhum)
- Dia 4: Ninguém brilha sozinho (foi aqui que tudo começou a ganhar força)
- Dia 5 e 6: Quando a história parou de ser ideia e virou estrutura
- Dia 7: O dia de descobrir se essa história ainda fazia sentido
Pela primeira vez desde que tudo isso
começou, parecia viável.
Se eu tivesse que resumir o Dia 1, diria que ele foi sobre duas coisas:
Diagnóstico e desapego
Diagnosticar exige que você olhe para o que já fez sem tentar defender, justificar ou manter só porque funcionou antes. E desapego entra exatamente aí — porque algo funcionar não significa que já está na sua melhor forma.
Teve também um fator que fez mais diferença do que eu esperava: sair do digital.
O papel desacelera o pensamento, torna o processo mais físico, mais visível. Você vê o caos antes de organizar, e isso, nesse estágio, é fundamental. Primeiro você bagunça, depois você estrutura.
No fim do dia, eu não escrevi melhor.
Eu enxerguei melhor.
Foi o que permitiu que os próximos passos existissem.
Agora, no Dia 2, eu começo pelo ponto mais sensível de todos: Elíade.
Não mais como alguém que só age, mas como alguém que precisa ser sentido.
Porque no fim, não foi a história que travou.
Foi a forma como eu estava fazendo ela existir.
E, antes que você pergunte…
Você acha mesmo que eu vou matar o Elíade e o Le Voulos?