A Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe

A Filosofia da Composição é um ensaio escrito por Edgar Allan Poe, onde ele explica a sua teoria sobre qual deve ser o processo criativo dos bons escritores, utilizando como exemplo o seu mundialmente conhecido poema, O Corvo.

Apesar de ter dado como exemplo um poema, a sua teoria pode e deve ser aplicada aos contos. E é desta perspectiva que vamos analisar a Filosofia da composição de Poe.

Vamos começar então. Preparado?

«Meu propósito consiste em demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquela avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.»

Poe começa por dizer que, embora muitos escritores gostem de perpetuar a ideia dos seus escritos serem fruto de pura intuição, a verdade é que existe um processo metódico e analítico por trás.

«Creio que existe um erro radical no método empregado para se construir um conto. Algumas vezes, a história nos proporciona uma tese; outras vezes, o escritor é inspirado por um acontecimento contemporâneo; ou, no melhor dos casos, senta-se para combinar os feitos surpreendentes que hão de formar a base de sua narrativa, procurando introduzir as descrições, o diálogo ou o seu comentário pessoal onde quer que um resquício no tecido da ação lhe force a fazê-lo. Eu prefiro começar com a consideração de um efeito.»

Para Poe o mais importante era a unidade de efeito, ou seja, o efeito que queria provocar no leitor, a impressão que queria passar.

«A consideração inicial foi esta: a dimensão. Se uma obra literária é muito extensa para ser lida de uma só assentada, devemos resignar-nos a eliminar o efeito, soberanamente decisivo, da unidade de impressão; porque quando são necessárias duas assentadas, interpõem-se entre elas os assuntos do mundo, e o que chamamos de conjunto ou totalidade cai por terra. […] No que se refere às dimensões, há, evidentemente, um limite positivo para todas as obras literárias: o limite de uma só sessão. É certo que em alguns géneros da prosa, como em Robinson Crusoe, não se exige a unidade, porque aquele limite pode ser trespassado. Sem embargo, nunca será conveniente trespassá-lo em um poema.»

Poe dizia que o conto tem de envolver o leitor de tal maneira que este tem de de o ler sem parar. Se o leitor parar de ler é por que o texto não funciona. Desta forma, Poe demonstra-nos também que um conto deve ser conciso.

«Meu pensamento se fixou seguidamente na elevação de uma impressão ou de um efeito que pudesse causar. Aqui creio que convém observar que, através desse trabalho e construção, tive sempre presente a vontade de criar uma obra universalmente apreciável. Iria longe demais se eu demonstrasse, no presente tratado, o que tenho insistido muitas vezes: que o belo é o único âmbito legítimo da poesia.»

O autor tem de ter um perfeito domínio do que vai ser narrado e da técnica narrativa que vai ser utilizada, ou seja, o planeamento da intenção e efeito que quer causar no leitor, e fazê-lo utilizando o mínimo de meios. Devemo-nos perguntar: Qual a reacção que eu quero causar no leitor? Aterrorizar? Encantar? Enganar? Etc.

A brevidade do conto é essencial para entendermos a sua essência e quais as ferramentas que podemos utilizar para construir um bom texto.

O autor não tem o factor tempo e espaço a seu favor, por isso vai ter de lutar pela densidade. O seu maior desafio será criar muito sentido, muito significado, muitas sensações em poucas palavras e em pouco espaço. Deste modo, o conto tem de ser objectivo sem se perder em pormenores.

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Publicado originalmente em Os Rabiscos da Geadas

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