- Gênero: Crônicas | Público Juvenil
E se eu falar pra ela que o São João vem inspirado de festa de pagão, não tem nada a ver com rojão, chamava de um negócio esquisito, um tal solstício, será que ela pula a fogueira comigo? Talvez assuste, moça bonita, jovem, vai dia de domingo lá na católica, aquela grandona, bem no meio da cidade. Tenho nada contra, não, só me sobra curiosidade e muito tempo de fazer pesquisa na internet cheia de gente pra falar.
Queria mesmo era convidar sem precisar combinar, sabe, dar um jeito, encontrar por acaso…
“Opa, morena, bom te ver! Vamo lá comigo no Divino, qualquer dia, tomar um tacacá?”
Mas aí eu nem sei se ela toma tacacá, nem sei se vai sozinha ou se vai com Brenda, uma prima ou uma das tantas Marias. E se ela já sabe de todos os santos e já colocou o pobre do Antônio lá por cima da geladeira pensando em outro, feito promessa e tudo? Aí não vai importar papo de pagão, nem levar dinheiro pra jogar fora na pescaria de mentira, nem dizer que, já faz um tempo, não pode mais ficar acendendo balão. Tinha tanto pra falar do Nordeste, de chuva, de festa, de ter o que comer, da Baleia…
Será que pesa muito falar de livro e de seca? Vai que ela não leu ainda, né? Menina bonita assim gasta muito tempo em salão, em unha, esses negócios todos aí que mulher faz pra ficar bonita andando na rua de sandália brilhosa e cabelo escorrido. Tem tempo, não, pra ficar no calor e lendo coisa antiga, no máximo lá no salão, se tiver revista. De repente até usa livro pra abanar o mormaço quando tá na rede.
Nem sei, queria mesmo era andar com ela de mãos dadas, mostrar pra ela que eu posso ficar cheiroso, que eu levo o guarda-chuva na moto caso chova, que eu guardei meus trocados a semana toda pra conseguir pagar nosso prato sortido, ou um tacacá (os dois, não dá), e um sorvete depois, se tiver lá.
Queria que ela fosse combinando comigo, verde com verde ou rosa com rosa, nem importa. Segurar a bolsinha dela, tão pequenininha, que não cabe é nada, mas incomoda andar com ela roçando na roupa. Levar ela pra casa depois de ver a quadrilha, mas nem sei se tem quadrilha, essas coisas não têm na internet, ninguém coloca, vou ter que ir lá perguntar ou vou ter que adivinhar.
Queria que tivesse uma daquelas senhoras de adivinhação pra dizer que a gente tem futuro, sabe, ler nossa mão. Já tô até vendo a gente na quadrilha ano que vem, ela de noiva, toda arrumada, eu todo cheiroso, a gente fazendo já um teste, assim, da nossa união. Nosso casamento pode ser enfeitado de São João, não tem problema, não.
Eram 10 dias de Festa do Divino, todo dia o povo pra lá e pra cá, andando devagar, moto pra sobrar. Não achei ela em nenhum, não esbarrei com ela, não vi, não encontrei pra convidar sem combinar. Será que tá doente? Vi lá a Brenda, a prima, umas Marias… Procurei que só, entre todas as bonitas. A mãe levou pra Manaus. Ou ela tá pra Vera Cruz. Ou foi pro boi, será? Não sei, só sei que queria ter visto lá no Divino, de unha nova, cabelo escorrido, vestido combinando comigo.
Vou guardar a história da Baleia, acho que vai cair bem, mulher gosta de homem que pensa, que trabalha no sol quente, mas que fica cheiroso pra passear. Aí eu também guardo dinheiro pra mais dois pratos sortidos, um tacacá e o que mais ela quiser, vou preparado. O casório vai ter que esperar
Tomara que Santo Antônio não se apresse a cobrar promessa.
Observação do Autor
Conto inspirado pela tradicional Festa do Divino, ocorrida em Maués, Amazonas. A celebração religiosa toma a cidade e é considerada patrimônio cultural e histórico.