Outro dia, eu quase perdi uma história. E não foi porque eu travei ou porque não sabia para onde ela ia. Pelo contrário: foi pior. Ela estava funcionando. E, justamente por isso — de um jeito meio cruel —, foi aí que começou a dar errado.
Existe uma coisa que ninguém te conta quando você começa a levar a escrita mais a sério: não basta uma história ser boa, ela precisa caber. Caber num formato, caber num preço, caber num modelo que permita que ela exista no mundo real sem te quebrar no processo. Em algum momento, a minha deixou de caber.
O mais curioso é que, até ali, eu tinha feito tudo “certo”. Eu já tinha fechado com ilustrador, as artes estavam em andamento e, além disso, a história estava crescendo — ficando melhor, mais complexa e mais interessante do que a primeira versão. Era aquele tipo de evolução que dá orgulho. Naturalmente, eu pensei: agora foi.
Só que, na prática, o mundo real não se importa muito com esse tipo de sensação.
O frete subiu (e não foi pouco); o custo de impressão, então…
Lembro exatamente do momento em que sentei para olhar isso com calma. Abri a planilha, comecei a colocar os números, ainda sem nem ter mandado o texto para revisão — mas já dava pra prever o cenário. A história tinha mais páginas, então naturalmente teria:
- mais preparação
- mais revisão
- mais diagramação
- mais custo de gráfica
Quando somei tudo, ficou evidente, muito rápido, que a conta não fechava.

Não era um “talvez eu consiga ajustar”. Era estrutural e pensando no longo prazo, não era sustentável. Eu não conseguiria manter o valor fixo da revista que idealizei; já estava mais caro de produzir, e ainda absorver o aumento do frete… Era o tipo de problema que não desaparece, só piora.
A primeira reação foi pânico. Não teve reflexão bonita nem insight profundo naquele momento. Foi só um impulso imediato de resolver: “fazer caber”.
E foi isso que eu fiz. Comecei a cortar.
Cortei cenas, reduzi trechos, enxuguei tudo o que dava, tentando forçar a história de volta para dentro do formato que eu tinha definido lá atrás. Como se o problema fosse ela ter crescido demais, como se crescer fosse o erro. Mas não era.
O que realmente me quebrou não foi só o número na planilha. Foi pensar no que vinha depois. Eu já tinha contratado quatro ilustrações e queria manter aquele padrão nas próximas. Queria consistência, queria evolução visual acompanhando a narrativa. E, naquele cenário, isso começava a ficar ameaçado.
Ali ficou claro que não era só um conto em risco. Era o projeto inteiro.
E foi nesse ponto que uma coisa meio óbvia, mas que eu vinha ignorando, apareceu com força: eu estava tratando a escrita e a estratégia como mundos separados. Sendo que não são.
Eu trabalho com marketing. Tenho visão estratégica, penso em produto, estrutura, posicionamento. Mas, curiosamente, nunca tinha levado isso pra minha escrita de verdade. Na escrita, eu sempre deixei o coração guiar. A ideia, a empolgação, a idealização. Um plano sonhado.
E isso tem valor, claro. Mas não sustenta tudo sozinho.
Quando você quer que um projeto cresça com consistência — principalmente um projeto editorial — não dá pra depender só do impulso criativo. Em algum momento, você precisa tomar decisões racionais. Não para limitar a história, mas para viabilizar ela.
Pensando nisso, eu parei de escrever e comecei a pensar como estrategista.
Não como alguém que quer escrever uma história boa, mas como alguém que precisa fazer essa história existir no mundo real, com todas as variáveis envolvidas. Peguei papel, fiz contas na calculadora, rabisquei possibilidades, simulei cenários diferentes até começar a enxergar uma solução que fosse, ao mesmo tempo:
- viável
- sustentável
- e coerente com o que a história estava pedindo
Durante esse processo que eu entendi que eu não estava “misturando” razão com criatividade. Eu estava potencializando as duas.
A solução não foi reduzir a história. Foi dar mais espaço para ela existir e acrescentar meus conhecimento de marketing, somados ao longo desses 15 anos de labuta.
Ela deixou de ser um conto isolado dentro de um formato rígido e passou a ser pensada como uma temporada. Dez contos no total. Sete deles digitais — mas não como uma etapa inferior ou provisória. Como formato mesmo, com identidade própria, pensados para funcionarem de forma independente e também como parte de um todo.
Isso mudou tudo, fez o jogo virar. Enfim, consigo dar forma a esse projeto!
O digital passou a ser produto, experiência, parte real da construção. E, ao mesmo tempo, tudo o que ele gera retorna para a própria história, financiando uma versão física mais robusta — com as ilustrações do artista que iniciou este projeto comigo —, com acabamento de coleção e o cuidado que eu queria desde o início.
De repente, fez sentido. Não só criativamente, mas editorialmente e estrategicamente. Sem conflito.
Só que essa clareza trouxe um novo problema:
A história que eu já tinha escrito não servia mais.
Ela tinha sido construída dentro de uma lógica de ritmo completamente diferente. Antes, era ação o tempo inteiro — espada, fogo, conflito sem pausa. Elíade não respirava (ah! pra você saber: Elíade é o protagonista).
Nesse novo formato, isso não funcionava. A história precisava de outra coisa: mais espaço, mais construção, mais intenção no ritmo. Precisava existir de um jeito que acompanhasse a nova estrutura.
Minha ficha caiu: eu achei que estava tentando salvar um projeto. Mas, no fundo, eu estava tentando salvar a forma como eu conto histórias.
Então eu tomei uma decisão que, olhando agora, parece óbvia — mas que na hora foi bem concreta: eu não ia reescrever tudo sem direção. Eu ia reestruturar tudo com intenção. Do zero, se fosse necessário.
Me dei um prazo: sete dias.
Não porque era confortável, mas porque eu precisava de velocidade. Precisava sair do loop de análise e entrar em execução. Tinha muita coisa pra ajustar — ritmo, divisão, estrutura… — e eu queria resolver isso de forma concentrada.
A parte mais interessante desse processo começa justamente aí:
Os sete dias em que eu peguei uma história que não cabia mais no formato que eu mesma tinha criado… e construí um jeito de fazer ela existir de verdade.
Nos próximos textos, eu vou abrir exatamente o que aconteceu em cada um desses dias. Sem romantizar, sem pular etapa, sem transformar em fórmula.
Só o processo real.