- Gênero: Drama | Público Jovem Adulto
Ilma Pereira
Ele chegou com aquela caixa e a colocou no chão, no meio do quarto que ficava ao lado da cozinha. Ali funcionava como uma sala, mais do que a própria sala da casa. Esta era reservada para visitas importantes. O quarto da cozinha era onde nos reuníamos para conversar e comer. Era onde papai arriava o saco de mantimentos mais as duas sacolas com compras.
Logo nos acercamos da novidade, imaginando, cada um de nós, de acordo com as nossas dores e angústias, o que teria dentro da augusta caixa que, já sabíamos, seria a última coisa a ser aberta. Papai sabia esticar a corda de nossa curiosidade infantil. Algumas vezes até a arrebentá-la. Pior pra nós, reféns de sua atenção e amor.
Meu irmão mais velho imaginou as peças que faltavam para o nosso velho fusca enfim andar; minha irmã imaginou roupas novas em substituição às roupas gastas que usávamos; eu imaginei uma caixa recheada de biscoitos de todos os tipos: doces, salgados, recheados, amanteigados.
Após uma demora proposital, já estávamos perdidos em outros pensamentos, papai nos chamou. Com uma cerimônia enervante, abriu solenemente a caixa e tirou lá de dentro um livro. O meu rosto refletia a mesma decepção de meus irmãos. Mas não demos um pio. Sabíamos o peso daquela mão que dava o pão, mas não titubeava em dar o castigo.
Ele nos mostrou a capa e discorreu sobre seu conteúdo, afirmando que mais belas histórias não existiam. Era um volume usado de Contos da Carochinha.
Engoli minha decepção e já ia me recolher atrás das paredes que me guardavam da maldade do mundo, sonhando com biscoitos e outras delícias, quando papai puxou outro livro. Maior, muitas páginas. Foi folheando cada página e nos deixando ver ilustrações absurdamente bem desenhadas.
E ele afirmou que quem lesse aquele livro viajaria para lugares incríveis. Meus irmãos debandaram, mas eu recebi aquela joia em meus braços.
Saí navegando e me perdendo com Robinson Crusoé, chorei de indignação com a maldade na vida de Cinderela, voei no tapete mágico e me aventurei com Os Sete Ladrões de Bagdá.
Passei a devorar livros com a mesma ganância dos biscoitos de outrora. E descobri que essa fome não consigo saciar.