- Gênero: Drama | Público Jovem Adulto
Ilma Pereira
Com seu uniforme impecável, um jovem motorista soltou um sorriso quando cruzou com Marília. Para evitar que seu filho desse um encontrão no desconhecido, ela esbarrou sem querer no muro chapiscado. A dor da fricção foi como um relâmpago. Num segundo, revisitou uma cena que julgava apagada de sua memória
Ele fora seu primeiro amor. Seu príncipe encantado. A menina sincronizava as pequenas tarefas do seu dia a dia para cruzar com ele. Garboso em sua farda, arrancava suspiros conduzindo seu ofício. As mulheres enxameavam à sua volta feito uma colmeia atarefada.
Com os braços sempre cruzados escondendo o incipiente crescimento, Marília passava na porta de sua casa como uma espiã. Esticava o pescoço e namorava as grades de ferro pontiagudas, as paredes de chapiscado grosso da garagem onde cantavam três ou quatro pássaros engaiolados. Até o velho carro coberto por uma colcha de retalhos era motivo de sua admiração.
Uma tarde quando passava pela rua, viu a esposa. Boquiaberta, observou a mulher. Cabelos longos negros e encaracolados até a cintura, um corpo bem proporcional ao rosto perfeito, uma pele que brilhava. Era divina.
Marília, uma mulher em crescimento, se afastou com um misto de inveja, sofrimento e tristeza. Murchou por não poder rivalizar com nenhuma beleza como a que acabara de presenciar. O vento brincava em suas pernas finas e gretadas pelo frio, mas ela só sentiu pela primeira vez a picada do ciúme. Jamais seria tão feliz quanto aquela mulher que ousava ser, além de bonita, a companheira do homem mais desejado do bairro.
Por mais de 15 dias não se desviou do seu caminho, não pegou o atalho mais longo, deixou de bisbilhotar a vida alheia.
Voltando do grupo escolar, trazia a cabeça cheia de caraminholas inimagináveis que poderiam estar ocupando aquela cabeça ainda tão pueril, eis que ela vê de longe aquele por quem suspirava.
Reteve os passos para melhor aproveitar a visão. Olhando de perto, ele nem era tão bonito. Talvez a distância lhe enganasse os olhos. Talvez sem o uniforme ele fosse só mais um, nem tanta atenção chamaria. Perdida nessas divagações, pisou de mau jeito e soltou a tira de seu chinelo. Abaixou-se e, enquanto lutava contra o orifício do chinelo que deveria conter um círculo de borracha maior do que ele, para que não se soltasse, ouviu o primeiro grito.
Estava parada bem em frente à garagem de grades pontiagudas. E lá dentro uma cena horripilante: todo garboso em seu uniforme, o objeto de sua admiração atirava contra a parede de chapiscado grosso a linda mulher de cabelos longos e encaracolados. Quanto mais ela pedia que parasse, com mais força ele a arremessava.
Os passarinhos continuavam, imperturbados, seu trinado .
Durante anos, aquela cena assombraria Marília.