Ilma

Conto: A noite mais longa da minha vida

  • Gênero: Drama | Público Jovem Adulto

Ilma Pereira

A música invade o interior do carro e reverbera até a minha alma. Agradeço ao frentista e toco na direção de  Ouro Preto. Sexta-feira à tarde, trânsito de matar. 

Mas Vander Lee, com sua voz maviosa, me ajuda a suportar as dezenas de quilômetros recheadas por mais caminhões que consigo imaginar.Afinal, as terras mineiras regurgitam minério de ferro infinito e não há ambição que determine o fim desmedido dessa extração.

E tome caminhão e mais caminhão.

Sou boa motorista, não sou de briga, deu seta, deixo ir. Nisto contrario o folclore nacional que diz que mineiro não dá seta.

Sigo em paz. Foi excelente minha estadia em Belo Horizonte, fechei um prédio de 8 andares, trabalho para muitos meses, o que mais uma arquiteta poderia querer?

Uma chuva fina começa, redobro a atenção na pista agora molhada  e com uma fina camada de minério que evola dos caminhões. Perigo à vista. Mas  sigo tranquila. Até que pego uma fila dupla de caminhões que deveriam trafegar só pela direita, mas não adianta xingar. Sigo na esquerda na esperança de que o caminhão volte à sua pista para carros lentos.

Um caminhão da direita, inconformado com a lentidão dos seus compatriotas, resolve sair para a esquerda. Sem dar seta, avança sobre mim. Os freios guincham. Fecho os olhos para não ver a colisão fatal que não acontece por questão de milímetros. O caminhão segue em frente, insensível.

Jogo o carro para direita, meu coração aos pulos. 

Diviso a entrada de um posto de gasolina. Entro,  desligo o carro  e saio para dar uma respirada. Um caminhão encosta atrás de mim, não o que me fechou,   um diferente. Respiro fundo muitas vezes, sentindo o vento gelado da tarde de outono que recolhe do chão  flores despetaladas.

  — Cláudia!

A simples menção do meu nome me assusta.Olho para um homem muito alto, barbudo, moreno, com início de calvície, que me observa atentamente.

— Cláudia, é você!

 Então eu reconheço minha primeira grande decepção,  meu primeiro namorado, meu primeiro amor,  a primeira boca que beijei. E é para ela que eu olho. O calor daqueles lábios cheios ainda consigo sentir sobre os meus, tão virginais na época.

— Você está bem? — Sua voz rouca soa mais perto.

 Subo o meu olhar dos lábios para o nariz, antes aquilino, agora um pouco mais alongado. Então paro em seus olhos negros, duas pedras duras, frias, como naquele longínquo inverno em que terminou comigo, sem nenhuma piedade. A menina apaixonada foi deixada para trás na poeira da estrada, tendo só o sabor dos doces beijos trocados e nenhuma explicação lógica.

  —Sou eu, João Pedro, o Dadinho, lembra de mim? 

É claro que eu me lembrava. Como poderia esquecer seus braços fortes, seu corpo quente como rocha incandescida que me aqueceu naquele longo inverno da minha vida. Minha mãe havia nos abandonado. Estávamos entregues à sorte de sermos jovens  sem mãe e com um pai  desnorteado. Mas Dadinho tinha surgido, forasteiro, e abocanhou todos os meus pensamentos ruins. Só havia alegria e contentamento ao seu lado, além das balas com que sempre me presenteava e que ainda hoje são as minhas preferidas.

  Suspiro fundo e olho naquele rosto adorável, envelhecido por 30 longos anos, eu ainda queria saber por que terminou comigo e me lançou  na noite mais longa e triste da minha vida, repleta de porquês.

 Meu telefone toca e impede o esboço de uma pergunta.

Oi, amor, está tudo bem? Já está vindo? Vem rápido para não pegar o trânsito da noite. Tô com saudades, te amo.

— Sim, já estou na estrada, daqui a pouco chego, também te amo.

 Desligo o telefone sem afastar o olhar do rosto daquele que me abriu as portas do universo chamado amor, amor e dor.  Olho bem no fundo dos seus olhos.

  —Eu não te conheço, deve ser um engano, passar bem.

 Entro no carro e acelero, deixando o caminhoneiro atônito. Ele sabia que eu era eu. Mas eu precisava lhe dar esse troco, eu precisava me vingar e vinguei aquele término 30 anos depois.

 Mas a boca e o coração viajavam amargos.

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