- Gênero: Crônicas | Público Jovem Adulto
Ilma Pereira
Esperei, mas ela não veio, nem naquele, nem no outro, nem depois do outro dia. Disseram-me que seria passageiro, que eu deveria deixar para lá. Fiz como me falaram: esquivei-me de pensar nela por longos dias, mas nem assim ela veio. Perguntei aos amigos como lidavam com sua ausência: resolvi colocar em prática suas diversas sugestões.
Mergulhei numa banheira com sais aromáticos, acendi velas perfumadas, tomei um vinho e relaxei. E relaxei, mas ela não veio. Fiz a cama na varanda, enfeitei tudo com flores, perfumei o ambiente com incenso, nem assim ela veio.
Desisti de esperar por ela. Abandonei-a ao relento do esquecimento, fiz de sua vinda página virada de minha existência. Descobri que, ao não nutrir mais desejo por sua vinda, por tirar de suas mãos o rótulo de “senhora do meu destino”, aos poucos fui me tornando menos dependente dela, de seus caprichos, de suas neuras, de suas crises melodramáticas e existenciais, de seus ataques de arrogância e protagonismo.
Enfim, me libertei de suas quimeras.
Hoje, levanto cedo, tomo de meus instrumentos de ofício, papel e caneta, e diligentemente, sento e escrevo,escrevo e escrevo.
E ela, a inspiração, nunca mais me abandonou: senta-se a meu lado e me lambe com sua língua aveludada, e recolhe, com seus dedos longos e frios, cada gota do suor de meu trabalho.