O primeiro beijo, o primeiro salário,
a carteira de motorista,
a publicação do primeiro livro,
histórias preciosas, significativas,
guardadas, lustrosas, nos porões da memória.
Tão necessárias para a autoestima,
toda primeira vez é uma vitória.
Mas o cuidado com o outro
sempre se fez tão normal,
bendita carga ancestral
que me ensinou:
o tempo é sempre depois,
até não ter mais jeito,
sendo sempre o modelo perfeito.
Sem sequer esboçar o desejo,
nas dobras da alma
uma mensagem sussurrava:
“já passou a sua hora, isso não é para você”
Mas a roda do destino me fez agraciada.
Com décadas de vida,
sou Ícaro com suas asas,
é a primeira vez que ganho uma bicicleta,
e descubro que tenho
muitos desejos ainda em recesso.
Ilma Pereira