Quem realmente reina

  • Gênero: Suspense | Público Infantil

Um homem, que assim como eu se chama Judas dos Anjos Oliveira, ter sua alma destinada ao inferno é uma coisa… Agora, um sujeito chamado João Batista ter este mesmo destino, certamente é um belo de um equívoco! Um nome define cem por cento a história de vida de uma pessoa — assim penso. Desta forma, João Batista só pode ser bom e descente; alguém de caráter genuíno pela própria natureza. Contudo, àquele que eu julgava destinado à glória e herdeiro do céu, aos olhos de Deus já estava condenado — era o que falavam dois indivíduos de aparência mais dúbia que meu próprio nome, enquanto passavam por mim e balançavam suas asas de fantasias angelicais.

Quanta blasfêmia! No entanto, nessa época do ano era o que mais havia no mundo: blasfêmias. E quem sou eu para julgar? Tenho tantos pecados que temo o dia em que serão revelados em números: um zilhão ou talvez mais. Porém, meus bem-feitos também são inúmeros e meu humor, ah… Este sim, já fez bastante carranca ser desmanchada e muita tristeza se transformar em alegria. Espero que isso pontue ao meu favor quando eu chegar no céu. Por hora, prefiro não pensar nessas coisas. A folia precisa começar! Reinarei, irei beber e dançar, brigar — se necessário — e fazer esse Carnaval brilhar mais do que mil faróis de milha juntos!

Mas para que isso aconteça preciso chegar rápido ao meu carro alegórico. Já estou há horas numa fila que nem ao menos sei como vim parar. Perguntei para a senhora à minha frente se era a fila para os carros alegóricos, mas ela não me respondeu. Questionei também o moço atrás de mim, que ao me ver falou um bocado de coisas sem sentido, como: “Cara, que bom que bom você tá bem!” e “Achei que você tava morto”. Todavia, o que se esperar de um bêbado com uma garrafa na mão? Tolice a minha questionar ele, afinal, o sujeito era outro que não fazia ideia de como havia chegado ali. Mas, disso também não posso falar muito… Enfim, a espera precisa terminar! Logo o peso do meu corpo começará a emitir sinais desconfortáveis: meus pés vão inchar, a minha coluna gritará de dor e as minhas pernas queimarão como brasas. Coisas nada agradáveis para quem pretende ficar na folia até o amanhecer. Assim, incomodado com a espera, inclinei a cabeça e vi que ainda tinha várias pessoas na minha frente: cerca de umas nove ou dez. Algumas muito bem fantasiadas; outras sem fantasia alguma — como era o caso da senhora que mencionei antes, completamente alheia à folia e com um terço na mão.

Como alguém não se anima com uma festa desta? Que coisa! Por mim, o Carnaval seria o ano todo. E esse, então, seria eterno: meu primeiro Carnaval como rei momo. E já que sem um rei a festa não pode começar; quanto mais tempo eu permanecer parado, menos a folia vai durar. Isso sim, é uma blasfêmia! E, num pico de ansiedade que me impedia de ficar parado, como se milhões de saúvas raivosas estivessem picando meu calcanhar, saí da fila e me dirigi a quem parecia ser o responsável por organizar o negócio todo por ali, que, por sinal, também usava uma fantasia de anjo. O ano dos querubins, só pode ser!

— Ei, preciso chegar logo ao meu carro alegórico. O prefeito já deve estar me esperando e não quero decepcioná-lo — gritei para ser ouvido de longe, afoito, enquanto me aproximava.

Aquele anjo se virou para mim e um holofote surgiu sobre nós. Era como um facho de luz projetado num palco, acentuando a dramatização de uma cena. A maquiagem em seu rosto estava perfeita e brilhava como púrpura. Suas asas se abriram, imensas e incríveis! Nunca havia visto uma fantasia como aquela, de plumagem tão impecável. Parecia ter um peso descomunal para ele — ou ela —, entretanto, seu semblante fulgurava leveza e nenhum sofrimento por carregar algo tão grande em seus ombros.

— O prefeito não está te aguardando mais — disse ele(a), com uma voz embalada de serenidade em pleno auge do Carnaval.

— Como não? Ele vai me entregar a chave da cidade em cima do carro alegórico. Tem certeza de que não o viu por aí? Ele deve estar fantasiado de Arlequim.

— Arlequim?

— Sim! Uma fantasia de losangos coloridos, semelhante a uma roupa de bobo da corte. Viu ele?

— Hum-hum… Acabou de entregar a chave da cidade para o rei momo. Aliás, um prefeito de bobo da corte, confesso, é criativo. Se foi ideia sua…

Senti-me lisonjeado. Realmente convencer o prefeito a usar aquela fantasia me rendeu horas de diálogo, colocando em prática todo o meu poder de persuasão e conhecimentos de neurolinguística. Deu-me um baita trabalho! Mas era necessário. Meu reinado precisava ser único e um rei momo de verdade jamais perderia a oportunidade de ridicularizar alguém tão importante como um prefeito. Até ele se dar conta do papel que estava fazendo, o povo já teria ganhado o seu presente.

Então, enquanto imaginava tudo aquilo acontecer, senti duas mãos puxarem meus braços. Eram os indivíduos que a pouco comentavam sobre o tal João Batista. Eles começaram a me retirar dali, vagarosamente, mas, espera… Aquele anjo disse que o prefeito já havia entregado a chave ao rei momo. Mas eu sou o rei momo! E não estou com a chave da cidade.

— Ei, cara! Quer dizer… — Como seria melhor chamar alguém que não sei se é homem ou mulher!? Por não saber, apenas prossegui. — O prefeito não me entregou nenhuma chave e eu sou o rei momo! Deve haver um engano.

Ele(a) se virou para mim, mirando em meus olhos. Seu profundo olhar penetrou em minha mente. Senti uma tranquilidade invadir meus pensamentos e, ao mesmo tempo, me incomodar bastante. Uma sensação que jamais vivenciei antes! Um homem tão vigoroso e eufórico, como eu, raramente usufrui de pensamentos tranquilos. Admito: nem gosto de sossego. Anteponho a loucura do mundo e o ritmo acelerado do dia a dia a uma vida tranquila e sem graça.

E aquela pessoa, com a fantasia mais esplêndida que eu já vi — e olha que sou um homem de muitos carnavais — aproximou-se ainda mais, colocando as mãos em meus ombros e dizendo:

— Judas dos Anjos Oliveira.

Seguiu, abrindo um pergaminho. E continuou com um discurso formal:

— Ator no Teatro das Tradições. Viveu uma vida feliz sem muitas dificuldades, falecendo hoje, aos 52 anos. Sua alma aguardará sua sentença em um sono profundo até o dia do julgamento final. Podem levá-lo — ordenou aos outros dois anjos.

Um grande vazio sobreveio sobre mim, percorrendo e assombrando todo o meu ser. O sangue que antes bombeava e meus hormônios que estavam em festa, pararam de circular e serem produzidos. Meu pulmão pareceu inflar e não esvaziar, meu globo ocular se dilatar e não se mover, meu coração… Onde estava ele? Apenas os ecos das batidas transitavam em meu interior; um tum-tum esvaecendo, fraco e distante… De repente, inerte. A única sensação que eu era capaz de notar era o calor das mãos dos anjos nada angelicais. Eles me conduziam para longe de tudo: dos meus sonhos, das pessoas que eu amava e de todos os meus bens. Minha memória se apagava aos poucos, enquanto um filme de quem um dia fui se passava perante meus olhos, numa velocidade que seria impossível qualquer ser humano normal acompanhar. No entanto, foi o suficiente para me fazer reviver cada momento, de forma tão intensa que aqueceram a minha alma, dando-me a sensação de estar vivo novamente.

Como uma fagulha que atinge um caminhão inflamável, minhas lembranças explodiram dentro de mim, retomando o bombear do meu sangue e fazendo os hormônios voltarem a trabalhar de forma desenfreada, embriagando-me de adrenalina.

De forma inexplicável, soltei um grito. Um grande Não que ecoou por todo o céu despertando a ira dos trovões e os fazendo despencar mundo afora. A luz celestial transformou-se em escuridão e, nas trevas, apenas com os flashes e o som projetado pelos relâmpagos, senti-me perdido e sem tranquilidade — mesmo aquele sendo um ambiente extremamente silencioso, livre de todas as vozes. Isso, até a aparição daquele anjo de asas divinas…

— Vejo que não consegue descansar em paz, Judas.

— Não recordo o que houve comigo. Estou muito triste e vazio. Não queria morrer.

— Vocês nunca querem… Não estão preparados. Precisam aceitar isso para descansar. A sua tormenta, Judas, é tão grande que lhe impede de alcançar a paz.

— Mas não consigo aceitar. É impossível descansar assim…

— Eu sei. Por isso estou aqui.

E ele estendeu suas mãos sobre mim, abrindo as asas e fazendo a luz resplandecer novamente em minha vida.

— Que a sua alma não permaneça em uma eterna procura. Volte à Terra e busque as respostas para as perguntas que lhe afligem. Judas dos Anjos Oliveira, vá e encontre a sua paz!

 

 

UMA HORA ANTES DO INCIDENTE

Ilustração - Quem Realmente ReinaDe repente lá estava eu: de volta ao jogo. No meio da multidão podia ouvir tudo e ver todos, mesmo sendo invisível aos olhos dos vivos, eu estava presente. Entre eles, gozava do calor da multidão e do péssimo — outrora aliciante — odor do pecado que impregnava o ar. Ah! Meus dias de folião… Por uma fração de segundos, tive saudades. Pessoas felizes e fantasiadas, algumas arremessando cocotes no ar… Na verdade, tudo muito familiar para mim; como um grande déjà vu.

No centro de tudo àquilo — via e reconhecia a origem daquelas memórias —, encontrava-se o Teatro das Tradições, apresentando a peça sobre a origem do Carnaval. Começavam reproduzindo o entrudo, com bonecos gigantes e homens fantasiados de mulher, depois, um rei e uma rainha ocupavam o palco. Era estranho demais reviver aquele momento, principalmente quando me vi entrar no palco. Que desempenho! Rasgo elogios para mim, pois são merecidos. Minha atuação era espetacular e todos na grande praça, onde a peça acontecia, riam muito. Estavam adorando o espetáculo — também me adoravam!

Como já conhecia muito bem aquela cena, caminhei para outra direção, deixando para trás o antigo e vivo Judas com sua plateia. Dirigi-me à avenida principal, procurando, um tanto sem rumo, por novas direções que pudessem trazer respostas aos meus questionamentos, até me sentar na sarjeta. Coloquei-me a observar as pessoas. Assim como eu, em tempo elas poderiam deixar de viver e, de certo, este era o único pensamento que não assolava suas mentes naquele exato momento, em pleno Carnaval. Enquanto me perdia em profundas reflexões sobre a vida, a morte e devaneios, avistei de longe a princesa da minha corte. Ela atravessava a avenida rapidamente em cima de um salto imenso, correndo em direção a uma casa repleta de prateleiras com bonecas na garagem.

Uma linda mulher! Muito graciosa e atraente. Atraente demais até mesmo para um espírito como eu. Não me contive e a segui. Existem algumas vantagens de ser um espírito… Uma delas é entrar em locais atravessando qualquer matéria sólida. Assim sendo, quando me dei conta, já estava no banheiro daquela casa observando a linda jovem colocar seus brincos de brilhante e retocar os lábios com a cor da paixão. Ela parecia um pouco assustada, olhando a todo instante para fora do banheiro através do espelho, como se estivesse com medo de alguém ou se escondendo de algo. Extremamente aflita. Cheguei a imaginar que ela conseguia me ver encostado à porta e que, por isso, possuía aquela expressão aterrorizante no rosto. No entanto, não era esse o motivo da sua angústia. O espelho não refletia nada além da sua própria beleza.

Para finalizar toda a produção, a linda moça borrifou um doce perfume que invadiu todo o cômodo. Respirei profundamente e percebi como meu olfato estava apurado! Sentia cada nota dele. Nunca fui tão ligado no assunto, mas entre os aromas, conseguia distinguir alguns: um pouco de maçã, minha fruta preferida; baunilha, que para mim só fazia sentido em sobremesas; menta, da qual detesto; e pólvora. Pólvora? Não sabia que pólvora compunha os ingredientes de um perfume… Um tanto exótico. Agora, talvez, possa entender por que depois de produzidas algumas mulheres são um estouro! Ha, ha, ha.

— Sofia, você está aí? Cadê você? Sua neta insolente! — gritou uma voz autoritária.

Logo, ela se apressou em sair do banheiro e desceu rapidamente as escadas, dando de frente com uma velha muito irritada no sétimo degrau que antecedia a sala. Aquela senhora se pôs a chamá-la por um bocado de adjetivos bem pesados e de baixo calão — destoantes de uma boa avó.

— Pare com isso, vó! Não vou vestir nenhum pijama, sou a princesa da corte esse ano.

— Esqueça isso de princesa! Você não vai a lugar algum nessa noite… É perigoso demais. Volte já para o seu quarto!

— Eu não vou voltar! Isso é tão importante como um trabalho.

E realmente era. As pessoas dão duro para fazer o que fazem no Carnaval. Assim como Sofia, eu sabia a honra que era ser o rei momo da cidade. Ser princesa também era algo bem equivalente. Significava que ela havia se dedicado muito para alcançar aquele posto. Horas de ensaio para vencer a disputa e ser eleita como princesa, fora todos os cuidados físicos e alimentares — fato este que não deve ser desmerecido por ninguém.

E então, a vó da moça começou a puxar a neta escada à cima, tentando levá-la para o seu quarto. Aproximando-me delas, a face azeda e mal-amada daquela senhora pareceu-me um tanto familiar… A velha amarga queria impedir a qualquer custo que a sua neta saísse naquela noite. Mas ela se desvencilhou da avó, que permaneceu relutante em soltá-la e numa briga de forças perdeu o equilíbrio, despencando degrau abaixo.

Em um primeiro momento pude observar o choque presente no rosto de Sofia. No chão da sala, com uma perna para um lado e a outra dobrada, a velha estava com o pescoço virado e os olhos arregalados, já totalmente sem vida. Ouvi um “Meu Deus!”, que percebi sair da linda mulher, contudo, seus lábios não haviam se movido. Notei, assim, mais uma vantagem em ser um espírito: escutar os pensamentos.

Num segundo momento, ao vê-la olhando para a avó, pensei que a jovem desmoronaria em lágrimas. Enganei-me. Sofia, que estava ajoelhada ao lado do corpo daquela senhora, apenas se levantou e olhou para os lados. Correu até a estante da sala e pegou um terço, que estava em cima de uma Bíblia, colocando-o nas mãos da velha. Após isso, tirou o telefone do gancho e começou a discar o número da emergência… Ao se deparar com o horário, sem hesitação, desligou sem esperar a ligação ser completada. Passou a mão em seus cabelos, para que todos os fios se ajeitassem, e saiu da casa deixando sua avó no chão da sala.

“Depois faço isso, não posso me atrasar. Esse é o meu primeiro ano como princesa da corte” — diziam seus pensamentos.

Não podia fazer nada por aquela pobre senhora! Sozinha e sem socorro, seu fim me comoveu e a única caridade que ainda estava ao meu alcance de fazer era um minuto de silêncio e uma interseção por sua alma. Logo depois, retirei a placa “Ateliê de Bonecas” da garagem — que assim como aquela senhora, deixaria de existir — e fui embora.

Ainda precisava descobrir o que havia acontecido comigo.

 

 

QUARENTA MINUTOS ANTES DO INCIDENTE

Ilustração - Quem Realmente ReinaEm um piscar de olhos eu já estava próximo ao sambódromo, ao lado da grande praça. Sofia estava ali, a espera de alguém. Agora eu a via apenas como uma mulher atraente. Sua beleza, para mim, se foi ao ver suas atitudes e conhecer seus pensamentos. Em virtude disso, decidi que não deveria perder meu precioso tempo contemplando seus atributos tentadores. Afinal, e se naquele exato momento algo de importante relacionado à minha morte estivesse acontecendo? Desse modo, virei-me pensando em voltar até os bastidores do teatro — cuja peça estava prestes a acabar.

— Batista, você está atrasado!

Batista? Não conheço muitos Batistas, aliás, conheço apenas uma pessoa com este sobrenome: Anastácia, minha amiga. Então, resolvi olhar quem era o sujeito. Em seu crachá estava escrito “João Batista” e logo me recordei dos anjos comentando sobre alguém com este mesmo nome. Seria ele? Nada indicava que estaria morto até o final do dia — mas ninguém aparenta isso —, pelo contrário, estava bem, agarrando Sofia em frente ao sambódromo.

— Já preciso ir, gata. Tenho trabalho a fazer — avisou ele.

— Você está sempre trabalhando! Para quem vai trabalhar agora, meu carteirozinho, posso saber?

E o tal João Batista não respondeu nada. Seu pensamento, impregnado de ciúmes, era apenas “Você é minha princesa e de mais ninguém”.

 

 

TRINTA MINUTOS ANTES DO INCIDENTE

Ilustração - Quem Realmente ReinaEm breve o relógio da minha vida iria parar. Observar um casal de jovens ardentes não parecia ser o caminho certo para encontrar as respostas dos meus questionamentos. Alguma força sobrenatural estava me guiando por aqueles caminhos, caso contrário, qual seria o propósito de eu estar perdendo tempo com assuntos tão irrelevantes? Com certeza não teria uma nova chance de voltar, então, talvez fosse mais proveitoso ficar perto do meu eu vivo e encontrar o responsável pela minha morte.

Ao retornar à grande praça, onde estava montado o palco do Teatro das Tradições, o espetáculo já havia terminado. Assim, fui até os bastidores para ver como eu estava. Na entrada do corredor havia um homem bem forte, meu segurança, tentando impedir que um bêbado com uma garrafa na mão passasse. Ele gritava. Dizia que era meu fã e que se não o deixasse entrar ele invadiria o camarim. Começaram a brigar, rolando no chão até que o bêbado conseguiu se levantar e correu, levando consigo a arma do segurança e o fazendo persegui-lo em direção à praça.

Enquanto os dois homens agiam como gato e rato, Anastácia me maquiava dentro do camarim. Ela sempre foi uma grande amiga e estava me ajudando por livre e espontânea vontade naquela tarde, fazendo uma maquiagem de despertar inveja a qualquer um. Ela já estava quase concluindo sua arte, quando um senhor trouxe um pacote com a minha roupa de rei momo. Naquele momento, quando Anastácia pegou a caixa, consegui ouvir seu pensamento, que me entristeceu profundamente: “Vai ficar ainda mais ridículo do que já é dentro dessa fantasia”.

Sempre achei que ela fosse minha amiga. Mais uma vez percebi o quão cego estava! Terminei de vestir a roupa e assim que me virei para ela, transbordando de felicidade, perguntei:

— Que tal?

E ela me respondeu:

— Está mais incrível do que nunca!

E correu para me abraçar. Enquanto nos abraçávamos, seu pensamento saltava: “Sua felicidade está próxima de acabar, seu idiota…”. Com isso, notei que além de não ser a amiga que imaginava Anastácia também poderia ser a pessoa que tirou a minha vida… Decepcionado: este era o estado do meu espírito!

 

 

O GRANDE INCIDENTE

Ilustração - Quem Realmente ReinaOlhava-me no espelho e conseguia ouvir todos os meus pensamentos. Já os conhecia, mas era tão bom reviver aquele momento… Estava ansioso, pois logo seria apresentado como o rei momo da cidade. Não era uma peça, era algo real! E tão real que eu havia feito questão de planejar aquele dia da forma mais perfeita possível, inclusive, contratando alguns garotos para aprontar com os foliões na rua. Pequenas brincadeiras, mas que dariam ao Carnaval um toque especial de um digno rei momo.

Enquanto eu enviava mensagens nos celulares dos garotos, para acertarmos todos os detalhes, ouvia vozes de uma conversa que não conseguia compreender de imediato… Uma força maior conduziu o meu espírito ao corredor.

— Tome. Aqui está o seu dinheiro, agora vasa! — disse Anastácia.

— Já falei que não quero dinheiro! Quero ver o Judas, você me prometeu. Não sou um idiota que se arrisca por qualquer coisa — respondeu o homem bêbado.

— Ah… Não vai rolar, ele já foi para o sambódromo.

Mas eu me encontrava no camarim! Anastácia estava mentindo para aquele homem que parecia gostar de mim. Aliás, não só parecia, como tive a prova de que realmente gostava — uma vez que permaneceram discutindo por alguns minutos, parou apenas de retrucar quando ganhou uma caixa de perucas que eram minhas. O bêbado ficou irradiante com as perucas, jogando o envelope de dinheiro na cara de Anastácia e saindo animado rumo ao sambódromo.

“Isso vale mais do que qualquer dinheiro. Vou me apressar ao sambódromo para tirar uma foto com ele. Esse ano eu consigo!” — dizia o pensamento do homem bêbado.

No mesmo instante, adentrava ao corredor um sujeito com jinga de malandro. Com boné para trás, roupa amarela e azul e uma grande caixa nas mãos. Seu olhar se entreolhou ao de Anastácia e nada disseram, todavia, em pensamento ele dizia “Obrigado, minha irmã”.

Desesperadamente o persegui. Sentia algo diferente no ar. Ele entrou em meu camarim e fez uma saudação calorosa:

— Salve o Rei!

E o Judas, que contemplava a sua própria imagem dentro do espelho e imaginava sua glória naquele Carnaval, se levantou e recebeu aquele carteiro com um forte abraço.

— Encomenda para o rei: Um rei momo sem sua boneca não é um rei momo de verdade! — disse o homem.

Vi-me pegar o pacote e o abrir de imediato, rasgando-o todo como uma criança faz ao abrir um presente, sem nem ao menos questionar sobre o destinatário. O carteiro saiu apressadamente, dizendo que tinha que retornar ao trabalho e, ao voltar meus olhos para mim, deparei-me com os meus últimos segundos de vida.

Judas dos Anjos Oliveira ergueu a boneca e se olhou no espelho, vanglorioso. Sorriu para si e ao deslizar seus dedos pelo braço do brinquedo sentiu um botão. Sobre ele havia um adesivo, que dizia “ligar”. E, segurando a boneca com as duas mãos, apertou o botão. Todo o camarim foi aos ares!

 

 

INSTANTES DEPOIS…

Ilustração - Quem Realmente ReinaNunca tinha ouvido o ensurdecedor barulho de uma bomba explodindo. Até mesmo para um espírito o som é alto! Muito pó se alastrava por toda a parte… Assim que a poeira baixou consegui visualizar os pedaços do meu corpo no chão, misturados à mobília.

Prossegui andando, abismado com o meu terrível fim. As pessoas próximas à praça corriam de um lado para o outro, em pânico. A folia havia se transformado em desespero… Via sofrimento e medo em cada face.

Não conseguia entender o real motivo de Anastácia se envolver em algo assim, tão horrendo. É um daqueles mistérios que talvez a vida nunca nos revele! Ao que aparentava, sempre foi uma grande amiga — ou talvez nunca tenha sido. Minha alma chorava por toda a tragédia. Pelas pessoas que se foram e pela minha própria vida, perdida. Não havia brilho algum naquele Carnaval e fato nenhum a ser festejado. Mesmo assim, instantes depois, ouvi um som vindo do sambódromo. Era a canção de abre alas, de onde meu espírito pôde ver uma última imagem terrena: um carro alegórico, com Sofia em cima e o prefeito dando a chave da cidade para o novo rei momo, que antes era o carteiro chamado João Batista. E, quando já estava indo de encontro ao céu, ainda ouvi um último pensamento, do homem que planejou a minha morte e reinava sem ser rei: “Qualquer um que tentar me fazer de bobo, jamais sairá vivo”.

Observação do Autor

⚖️ Este conto é de autoria de Aline A. Siqueira. Publicado na antologia "Por Trás Das Máscaras" (SAL, 2020). Sua cópia sem a permissão do autor configura uma forma de roubo (plágio). Crime, conforme Art. 184 do Código Penal.

Ilustrações do caricaturista John Decker (domínio público).

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