INFÂNCIAS ENTRELAÇADAS – Textos baseados no romance “CORRENTES DE PAPEL”

  • Gênero: Romance | Público Jovem adulto

Maria Catarina e Coronel Emílio

Década de 1860, Villa do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, Brasil.

O estalar do tapa no rosto despertou a atenção da menina.

Sabe aquele calor de uma hora da tarde, de sol escaldante e vento parado? Aquela quentura de fazer suar a pingos? E ainda para piorar, depois do almoço, vem a preguiça, lombeira de não se aguentar de pé; faz a pessoa querer se esticar numa rede e tirar um cochilo. E era justamente o que o pai de Catarina, o coronel Emílio Correia Fragoso, estava fazendo.

A menina parou de comer e saiu andando até uma das enormes janelas da sala. Ficou na ponta dos pés e se pendurou, com os braços apoiados no beiral, para ver o pai. Com uma perna para fora, firmada ao chão, ele cadenciava o balanço da rede de um jeito tão natural que ela parecia mexer-se por si só, naquele eterno vai e vem. De vez em quando, mesmo sem abrir os olhos, ele levantava a mão para espantar uma mosca ou outra que rondava o bigode. Há pouco, acertou o próprio rosto. “Vai ver está sujo de comida”. A criança admirada queria saber como ele conseguia ter aqueles reflexos, apesar de estar dormindo. Ela pegou o prato com doce de abóbora que havia descansado sobre a mesa e foi observar o pai mais de perto.

Os seus passos curtos a levaram em frente aos roncos.

Catarina comia a sobremesa em pequeninas porções. Pegava com a ponta da colher e a mantinha na boca, até o gosto do doce ir embora.

Ela se aproximou mais ainda.

Da boca aberta do pai, além do ruído que mais parecia um gemido, escorria um fino fio de baba. “Que nojo!” Quando ela se retraiu, fez uma careta e o prato escorregou da sua mão. Num reflexo, fechou os olhos e tapou os ouvidos.

Aos poucos, foi abrindo o olhar.

O estalo da louça se espatifando no chão não foi capaz de acordar o pai. Ele apenas mudou de posição: colocou uma perna para dentro da rede e tirou a outra. Ela disparou em direção à cozinha, mas antes que pudesse chegar, alguém a puxou pela mãozinha de volta para a sala.

Já não bastava o seu doce de abóbora ter ficado no chão, a tarde de privações para Catarina estava apenas começando.

Na vitalidade dos seus oito anos, sentada a contragosto na sala de jantar, Catarina tentava agora ser domada pelas aulas de boas maneiras de Mademoiselle Juniet. Nadine Juniet era seu nome. A educadora de meia idade, na fazenda há poucas semanas, possuía porte altivo, nariz empinado e parecia nunca ter sido exposta ao sol. E, apesar de ter residido na capital pernambucana durante alguns anos, ainda conservava grande parte do seu sotaque francês.

Mudanças bruscas, em tão pouco tempo… Até o cheiro da sala era outro. A fragrância suave e gostosa de alfazema, resquícios da sua avó, espalhada pelos ambientes da casa — cheiro de cuidado e de carinho — foi substituída por aquele forte odor do perfume que Mademoiselle Juniet exalava; que extrapolava os limites do entorno do seu corpo e ardia ao entrar pelas ventas.

A aula daquele dia era sobre como se portar à mesa durante as refeições. Os seus dias de comer na companhia dos amigos, sem modos e sem horários, haviam acabado. Ela não fazia ideia de que existia uma variedade tão grande de pratos, copos, talheres e baixelas. A louça da sua família era vinda de Portugal, toda desenhada e pintada com riqueza de traços dourados e coloridos; finas taças de cristal de vários tamanhos e formatos; e pesados talheres de prata muito bem polidos e lustrados. A mesa exposta e arrumada comparava-se à beleza dos quadros das paredes, digna de se admirar, apesar de intimidadora.

A menina, até então criada solta pela fazenda, correndo de pés descalços junto à molecada, achava não pertencer àquele mundo cheio de fragilidades. Se por acaso quebrasse alguma das peças, viria mais castigo. Memorizar, então, a serventia de cada item para acolher os variados alimentos e bebidas lhe dava até dor de cabeça. Para ela, bastava uma colher e uma vasilha com comida e pronto. Crianças não ligam para detalhes.

Na maioria das vezes, ela almoçava na cozinha com Benê, Miana e mãe Doninha e nunca usavam tantos pratos. Até na senzala com a molecada ela já havia comido, direto com a mão, sem nem usar talher.

Coronel Emílio reconhecia sua culpa por ter deixado a filha ser criada solta. Mas tocar o engenho e a fazenda lhe demandavam tempo. Imaginava que deixar a menina junto a outras crianças iria suprir a falta da mãe e a atenção que ele não podia lhe dar. Porém, era chegada a hora de mudar.

— Lembre-se de que você é uma menina e não um moleque para ficar por aí pela fazenda aprontando das suas! Tem que parar com isso! Você precisa é aprender todas essas coisas de etiqueta, de bordados… Um dia você vai se tornar uma verdadeira dama e uma esposa exemplar, como a sua mãe foi.

Seu pai alternava as tempestivas reprimendas com o uso de conselhos, pacientemente elaborados e repletos dos seus argumentos. Dessa maneira, de uma forma ou de outra, esperava impor a sua autoridade e deixar claro o seu domínio sobre a menina.

Penalidades, como ir para cama sem jantar, ficar dias sem sobremesa e permanecer de pé por horas num canto de parede, eram as mais comuns. Histórias assustadoras e de assombrações que antes eram contadas — como a do “Cabeleira”, o fantasma do bandido que pegava as crianças peraltas — não produziam mais o resultado de conter e amedrontar a meninada.

Pelo que a criança aprontava, teria mesmo muito a aprender e a mudar para atender aos gostos do pai.

Vindos do lado de fora da casa, os gritos e gargalhadas dos amigos brincando dividiam a atenção de Catarina com os ensinamentos de Mademoiselle Juniet. Embora ela estivesse fisicamente presente naquela sala, os pensamentos estavam circulando no meio da algazarra ao ar livre.

Amigos inseparáveis: Domingos, Benê, Miana, Tião, Juvenal, Francisco e Catarina.

Eles costumavam brincar de roda e de pescaria, subir em árvores, fazer casinhas de barro e comidinhas de lama e simular brigas. A criatividade era o limite das brincadeiras que inventavam. Suas armas eram estilingues ou espadas de galhos secos. Faziam arapucas para pegar passarinhos e fugiam de marimbondos reais e imaginários. Mas o bom mesmo era andar nos barulhentos carros de boi. Divertiam-se com o chacoalhar da carroça, ao mesmo tempo em que tentavam imitar o som do ranger das rodas. E quando já tinham cansado os ouvidos do carroceiro com os seus gritos, ele parava a carroça e os botava para correr.

Eram apenas crianças, nada mais. Apesar de Catarina ser a única de pele clara e a “filha do coroné”, como diziam, os pequeninos tinham a ingenuidade de se considerarem todos iguais: nem senhores e nem escravos. Mocinhos e bandidos, ricos e pobres eram apenas personagens das suas brincadeiras de faz-de-conta.

Mas desde quando seu pai contratou a tal professora francesa, a vida queria mudar. Era difícil de se acostumar com o uso de vestidos pesados, com tantas saias. Mais difícil ainda era atender às recomendações para não se sujar.

E esse era mais um motivo para o pai a proibir de andar com os meninos. Mas, apesar dos castigos e das horas diárias de aprendizado, ela sempre dava um jeito de escapulir e lá estava outra vez com os amigos pulando e brincando de um lado para o outro, por toda a parte.

Tudo desviava a atenção da menina e levava seus pensamentos para longe da sua educadora. Arquitetar planos para se esquivar das aulas instigava a capacidade imaginativa da aluna. Por isso, já começava a pensar no que iria inventar para o dia seguinte.

— Maria Catarina Correia Fragoso!

No minuto seguinte o pai entrou pela sala com um pé calçado e o outro não. Da alpercata de couro na mão, com o solado lambuzado de uma massa cor de abóbora, escorria um rastro de sujeira deixado pelo chão.

Ela só fez baixar a cabeça e se escangalhar de tanto rir.

Mãe Doninha

Provocar mãe Doninha também era um dos pequenos prazeres das crianças.

— Mãe Doninha, faz bolo de arruda? — pediu Catarina, certa vez, instigada pelos outros meninos.

— Onde já se viu bolo de arruda, menina? Que história é essa?

Francisco, Juvenal, Domingos e Tião espiavam pela janela e não continham os risos, enquanto as meninas, brincando com suas panelinhas de barro pelo chão, também gargalhavam.

— Mas a arruda não é para espantar os maus espíritos que rondam a gente? Então? Se comer a arruda, vai espantar os espíritos ruins de dentro da gente. E como a arruda não tem um gosto bom, fica muito melhor de comer se for no bolo — argumentou de maneira infantil, tentando em vão se fingir de séria.

— Num inventa não, nhazinha! Num inventa! — advertiu, sacudindo o pano de prato para espantar a meninada para fora da sua cozinha.

— Mãe Doninha, faz geleia de tâmaras. Me deu uma vontade danada de comer geleia de tâmaras. — disse Catarina, em outra vez, repetindo algo que ouvira de algum adulto.

— E eu sei que diacho é isso, menina! Óia, nhazinha, deixa de me abusá! — respondeu a negra contrariada, enxotando-a da cozinha sob os risos da criançada, que sempre espiava à distância. E Catarina queria abusar mesmo, pois nem ela sabia o que era tâmara ou se era algo que realmente existia.

Francisco

Na fazenda do coronel Emílio, desde cedo as crianças aprendiam a mentir. Mas eram aquelas mentiras bobas e ingênuas para impressionar os amiguinhos ou para escapar dos castigos dos mais velhos. Catarina, filha do coronel, raramente mentia, mas, quando fazia, tinha que ser bem-feito.

Certo dia, passando pela cozinha, avistou um pote de doce de leite na beirada do fogão. Aquele era o doce mais gostoso de todos que mãe Doninha fazia. A menina ia para lá e para cá só tocaiando o pote para se certificar de que ele estava ali sozinho. Então, sem ninguém por perto, ela se aproximou e esticou o dedo mindinho para tocar o pote de vidro. Ele estava frio. E parecia muito, muito gostoso.

Se fosse esperar, só iria poder comer uma pequena porção, servida após o almoço. Mas a vontade era imensa e não se coube em Catarina. Por isso resolveu dar o bote no pote inteiro. Rapidamente apanhou o vidro, cobriu com um pano que estava pendurado em uma cadeira e saiu correndo para o seu quarto. Naquele momento, era o melhor lugar onde o poderia comer escondida de todos.

Mas, a rapidez com que deixara a cozinha foi tão grande, que se esqueceu de apanhar uma colher.

— Vai com a mão mesmo. — Resolveu a questão.

Sentada ao chão, encostada na cama, comeu, lambeu, comeu… até matar a vontade, chegando à metade do vidro. Já empanturrada, e toda lambuzada, tinha que pensar na forma de se livrar do resto do doce e da culpa.

Pensou… e encontrou a solução.

Voltou à cozinha de mansinho, colocou o pote de vidro onde estava antes e deu um leve empurrão, para ele cair e se quebrar. Ninguém ia perceber que o vidro espatifado ao chão estava pela metade. Feito isso, correu para o açude para se lavar, esquivando-se o quanto pôde, para ninguém a ver.

Uma hora depois, Catarina entrou de volta pela cozinha, ensopada da cabeça aos pés. Acabou dando de cara com mãe Doninha toda agitada, limpando a meladeira do chão.

— Nhazinha viu quem foi o desinfeliz que derrubou isso aqui? — perguntou a negra velha, ainda esfregando o chão, sem levantar a cabeça.

— Vi não.

Ela já ensaiava sair de fininho, quando mãe Doninha percebeu que a menina estava toda molhada, com os cabelos pingando.

— Nhazinha tava onde e fazendo o quê?

— Eu tava no açude brincando.

— E essa roupa melada de doce aí?

Quando a mãe gorda disse aquela frase com as mãos nas ancas, Catarina, num reflexo, baixou o olhar, que ia de um lado a outro, procurando alguma sujeira em seu pequeno corpo. Constatou, então, que sua travessura quase perfeita tinha mostrado uma falha: ela não havia se lavado direito e uma mancha de doce de leite a delatava na manga do vestido. Catarina estava prestes a ser descoberta.

— Vai ver que quando eu fui correndo pro açude, eu esbarrei num dos meninos que estava lambuzado de doce e sujou a minha roupa — persistiu na mentira e ainda a encobriu com outra.

— Nhazinha Catarina! Mentí é muito feio! Inda mais quando coloca a culpa nos ôtro.

— Não estou mentindo não, mãe Doninha — disse jurando de pés juntos e com os dedos cruzados nas costas.

— Óia, vô falá com o Coroné e ele vai te castigá!

Catarina, de olhar arregalado e com um friozinho na barriga, já se via sofrendo durante um mês, proibida de comer sobremesas.

— Foi eu, foi eu, mãe Doninha, que quebrei o vidro. Num briga com Catarina, não. Foi eu.

Francisco — moleque franzino, com as pernas cheias de perebas, parceiro das brincadeiras de Catarina — tinha entrado devagar e estava parado observando o desenrolar da história. Mas, quando percebeu a sinhazinha pressionada contra a parede, de supetão ele se apresentou assumindo a culpa. Ela, que estava amedrontada, pensando em como se livrar, nem o tinha percebido antes. E daquele momento em diante, ela não entendeu mais nada.

— Óia, Chico. Foi ocê mesmo? — perguntou a mãe gorda toda desconfiada para o menino cabisbaixo.

Mal ele assentiu com a cabeça, mesmo sem erguer a vista, mãe Doninha lhe deu um beliscão e o pegou pela orelha, saindo com ele pendurado, dizendo coisa, para fora da cozinha.

Catarina aproveitou que tinha sido deixada de lado, e subiu correndo as escadas para o seu quarto. Enquanto tirava a roupa molhada ficou matutando, tentando compreender.

— Como é que eu não vi o outro pote de doce que Francisco quebrou?

Sebastião

A mais danada de todas as crianças era Tião. Sempre dava um jeito de se esquivar das suas obrigações. Aos nove anos de idade, era tão escurinho e andava sempre tão sujo, que parecia um boneco de carvão. Em sua defesa, tinha o sorriso mais aberto, os dentes mais alvos e os trejeitos mais engraçados. Era impossível não se render à graça das suas travessuras Machucar-se, então, era costumeiro, porque não parava quieto. Vivia aprontando.

De vez em quando Tião sumia. O pai, prevendo a causa do sumiço, saía pelos cantos a procurar.

— Sebastião! Sebastião!

Parecia que todos os pais eram do mesmo jeito. Quando os filhos faziam alguma coisa que eles não aprovavam e acabavam por descobrir, os pequenos já sabiam o que viria pela frente só de ouvir chamar. Bastava gritar o nome inteiro. Este era o sinal para esperar repreensão e corretivo.

Certa vez, resolveram brincar de faz de conta em cima de algumas carroças que costumavam carregar a cana do engenho para a moagem. Os animais estavam no pasto e havia duas carroças desatreladas dos bichos, perto do curral. Com galhos secos e raspados, improvisaram, as espadas. As meninas eram as princesas. Três donzelas: Benê, Miana e Catarina. As duas carroças que estavam lado a lado eram as torres do castelo. Francisco e Domingos faziam o papel dos corajosos soldados que protegiam as donzelas, e Juvenal e Tião eram os malfeitores que queriam raptar as princesas e pedir a coroa do rei em troca da libertação das meninas.

A brincadeira corria solta, com muitas risadas e duelos de espadas. Tudo parecia transcorrer bem até que, sabe-se lá o porquê, inventaram de ficar todos de uma vez numa única carroça.

Tião, trepado numa das rodas, se balançava feito um doido, insistindo nas batalhas. Queria porque queria que os bandidos vencessem, a todo custo. Mas todos sabiam que não podia ser assim! Uma das regras principais era terminar sempre com os malfeitores presos ou mortos. A vitória tinha que ser dos mocinhos.

Nisso, no meio da brincadeira, talvez por causa de tantos pulos e sacolejos, a roda onde Tião estava pendurado se desprendeu. Foi uma gritaria só. Todos caíram, mas não sofreram nada, porque a grama amorteceu a queda. Mas Tião não teve a mesma sorte: agarrado à roda, saiu rolando ladeira abaixo. Rolou, rolou, rolou… até o ponto em que terminava a inclinação do terreno, e tombou no chão com aquela pesada roda de madeira arriando por cima de uma das suas pernas.

— Morreu, morreu! — Os meninos gritaram desesperados, enquanto corriam para acudir. Após tirarem o amigo debaixo da roda, aos poucos ele foi recobrando os sentidos. Movendo-se bem devagar, soltava um “ai” a cada tentativa de se levantar, sinalizando que a perna direita podia estar quebrada.

Tendo ouvido a gritaria, o avô de Juvenal e o pai de Tião, que estavam por perto, foram às pressas ver o que era.

— Que meninos danados! Sebastião! Sebastião!

Foi só ouvir o pai chamar, que ele, mesmo mancando, tentou se esquivar do jeito que pôde. Apesar do acontecido, saiu pulando e se arrastando, para se esconder em algum canto, enquanto o resto das crianças correu um para cada lado. Nas horas do pega-pra-capar era cada um por si.

Quase meia hora depois foi que o pai conseguiu pegar o moleque que tinha literalmente dado no pé, saltitando numa perna só, feito um saci. Foi achado todo encolhido atrás de uma moita, nos fundos da casa grande.

Tião estava pensando que ia apanhar, mas seu pai havia percebido a gravidade do acidente e queria mesmo era socorrer o filho.

Até o Coronel Emílio se apiedou do menino. Vendo que a coisa parecia séria mandou chamar um médico. O resultado? Tião ganhou curativos nos joelhos arranhados e ficou com um inchaço na canela e com um galo na cabeça. Foi um bocado de dias com a perna enfaixada para cima, agoniado sem poder brincar, até ficar bom.

Depois disso, o coronel apurou que as carroças envolvidas já estavam encostadas, para serem consertadas.

E assim, como há males que vêm para o bem, após o caso, as crianças sossegaram por um tempo e decorreu um breve período de calmaria pela fazenda.

Benê e Domingos

Aos 10 anos Catarina já sabia ler e escrever de forma correta. Após muita insistência, ela acabou se habituando à presença da sua instrutora francesa e até quase gostava, não só das suas lições, como das conversas sobre todos os assuntos. E foram essas aulas que fizeram a sinhazinha despertar para uma nova ideia: ensinar aos seus amigos tudo o que ela havia aprendido com Mademoiselle Juniet. Catarina seria a professora; ela passaria as mesmas lições que a francesa havia passado para ela. E a melhor parte: ia poder botar todos de castigo e dar palmatórias, caso não se comportassem ou a desobedecessem. Parecia ser uma brincadeira bem divertida!

No dia seguinte, lá estava a sinhazinha com Benê, sentadas à mesa na cozinha. mãe Doninha, escrava antiga e cheia de direitos, cozinhava à beira do fogo, mexendo com uma enorme colher de pau um caldeirão de carne ensopada que cheirava por toda a casa. Mantinha um olho no fogão e outro, cheio de curiosidade para cima do que os pequenos andavam fazendo.

Sobre o caderno de lições a outra menina segurava com firmeza um toco de lápis que tentava manter aprumado. Alguns rabiscos eram desenhados pela filha da cozinheira. Trêmulos e desengonçados eram os traços que saiam quando ela tentava fazer o seu nome, sem êxito.

— Escreve aí, Benê. É só passar por cima! Be-ne-di-ta! — Catarina chegou a gritar impaciente.

— Óia, eu num sei fazê, não! Num sei nem a letra “a”!

E jogando o lápis sobre a mesa, a primeira aluna saiu contrariada, batendo os pés no chão e resmungando.

Mãe Doninha, com o beiço arriado, só observava. Ao ver a filha ir para o quintal com a brabeza que herdara da mãe, ela só fez olhar a sinhazinha com a cara feia e balançar a cabeça para os lados. Mesmo sem palavras, estava claro o que queria dizer: “Acaba com essa invenção, menina!”

Mas Catarina era tinhosa e ainda acreditava no sucesso daquela brincadeira. Por isso, não desistiu. Levantou-se e minutos depois vinha puxando pelo braço mais outro dos seus amiguinhos de pele escura para ser mais um aluno: Domingos.

Antes de começar com o bê-á-bá, teve que ensinar o menino a segurar o lápis corretamente. Percebeu que essa era uma grande dificuldade para os seus alunos. Não estavam acostumados nem mesmo a ficar sentados à mesa, a não ser para comer.

— A letra “a” é assim: uma bolinha e uma perninha. —  tentava explicar do jeito mais simples possível.

Domingos se esforçava, mas era muito vagaroso. Ele dobrava a língua e a colocava entre os dentes, tamanho era o esforço para fazer algo que Catarina julgava extremamente fácil. Chegou a quebrar a ponta do lápis por três vezes, fazendo ela correr até uma das salas para apanhar outros na escrivaninha de seu pai.

— Domingos, não precisa colocar tanta força!

E assim, para passar por cima da letra “a”, que ela havia desenhado dez vezes para Domingos cobrir, ele levou uma hora inteira.

— Óia, consegui, consegui! — gritou ele saltitando de alegria ao findar a tarefa.

— Por hoje a aula terminou — falou a professorinha exausta e entediada pela extrema lentidão do amigo.

O negrinho então saiu correndo cheio de satisfação, mas em um minuto voltou para perguntar:

— Era o quê qu‘eu tava escrevendo?

— A letra “a”, Domingos — respondeu desanimada.  — A letra “a”.

E ele saiu cantarolando:

— Eu fiz a letra “a-a”, eu fiz a letra “a”!

Diante da expressão de desapontamento da sinhazinha, mãe Doninha, que acabara de colocar outra panela no fogo, não escondeu a sua gargalhada.

Não satisfeita e sem se dar por vencida, disposta a provar que aquela sua ideia podia gerar bons frutos, decidiu fazer a última tentativa.  Foi até o chiqueiro e minutos depois era Chico quem ela puxava pelo braço, tirando o menino dos seus afazeres. Ele que toda vez ouvia o que ela falava, ia ser o aluno ideal.

— Francisco, primeiro você vai lavar as mãos. Vou te ensinar a ler e a escrever. De agora em diante serei sua professora.

— Eu? — disse o negrinho, incrédulo, sem entender.

Do outro lado da cozinha, mãe Doninha se ria outra vez, o que para Catarina soava como um desafio. Aí é que ela ia insistir de verdade com aquilo. E foi o que fez durante vários e vários meses.

Ela pegava os jornais velhos que seu pai já tinha lido e levava para ler com Francisco. Muita coisa que estava escrito eles não compreendiam, mas ao menos as letras ele ia aprendendo a juntar. Depois passou a juntar as palavras em frases. E foi dessa forma que Chico se tornou o único escravo da fazenda que tinha aprendido a ler, a escrever e a falar de modo correto. Dentre todos os meninos, apenas ele persistiu e teve boa vontade em aprender, e o único a quem Catarina teve paciência e gosto de ensinar.

Os outros? Não chegaram a sair da letra “a”.

A família

Um dia, o Coronel Emílio apareceu com uma novidade que deixou a criançada num alvoroço só.

— Quero você, minha filha Catarina, no melhor dos vestidos. Eu contratei com seu Mário Oliveira para vir aqui na próxima sexta-feira para nos tirar um retrato.

Durante toda a semana os escravos adultos da casa e suas crianças cochichavam pelos quatro cantos esperando sair no tal retrato. Naquela época, tirar uma fotografia era coisa de gente com muitas posses. Coronel Emílio julgou a ocasião propícia para essa extravagância, afinal de contas no domingo seguinte seria o aniversário de doze anos de sua filha. Este seria um dos presentes não só para ela, mas também para ele.

Catarina rondava o pai, pedindo que deixasse seus amigos saírem no retrato ao seu lado. Com uma expressão de irritação, apesar de ela ser a aniversariante, ele dava várias negativas e se esquivava do seu assédio. Por derradeiro, ele sentenciou que apenas mãe Doninha, dentre todos os escravos, teria permissão para posar ao seu lado, desde que estivesse apresentável. Então, Catarina, Miana e Benê correram para arrumar um vestido que coubesse naquela “mãezona”.

Os anos à beira do fogão à lenha, preparando e logicamente comendo, transfiguraram a imagem roliça de mãe Doninha de outrora, deixando-a bem acima do peso e com pouquíssimas curvas. Ela estava na fazenda há tanto tempo. E ninguém nem mais lembrava que o seu nome de batismo era Clarinda. Mas desde quando os moleques ouviram aquele nome, só para provocar, eles se penduravam na janela da cozinha e gritavam, rindo e zombando:

— Dona Crarinda!

— Mãe Gorda!

— Dona Calinda!

Mãe Doninha se fazia de braba e os botava para correr. Mas, por dentro, ela se ria.

Então o dia chegou. Ou melhor, o retratista chegou. O tão esperado seu Mário Oliveira. Com um imenso bigode branco e um chapéu surrado, trazia uma caixa de madeira quadrada, um tripé e uma maleta com o resto dos seus apetrechos. O cenário ia ser a sala principal da casa. Eram tantos detalhes de claridade do sol, de sombras e de posições, que a preparação durou bem umas três horas. O coronel Emílio Fragoso tinha que aparecer como o patriarca todo poderoso, com a sua altivez em seu terno de linho impecável. Ao seu lado, Catarina posava de pé, com todas as anáguas possíveis para dar volume ao saiote do vestido. Com os cabelos cacheados e adornados com fitas, ela se posicionava à frente de mãe Doninha. Esta última usava um lenço branco amarrado à cabeça com todo o cuidado para ocultar até o menor fio de cabelo. Com um vestido branco de mangas compridas, a mãe preta ficava, de maneira discreta, em segundo plano.

O mais difícil era segurar o riso, vendo Domingos e Juvenal espiando pelas janelas e passando de um lado a outro fazendo caretas e imitando os movimentos do retratista.

— Sem sorrir, sem sorrir! E sem se mexer! — alertava seu Mário Oliveira.

E só depois de muito arrumar e esperar… Bum! Pequenas faíscas, com um foguinho que logo se apagou, sinalizaram que já podíamos nos mexer.

Depois de vários dias, tantos que perderam a conta, o tal retrato chegou. Já emoldurado, o coronel o colocou com toda a sua ternura ao lado do da esposa falecida.

Aquela pequena família estava de novo reunida sobre o móvel da sala.

 

A Autora

Rosângela Martins é formada em Jornalismo e pós-graduada em Teologia. Carioca e há anos residindo em Pernambuco, após a sua aposentadoria como empresária, na cidade de Vitória de Santo Antão, decidiu se reinventar e partiu para a escrita. CORRENTES DE PAPEL é a sua estreia como romancista. Além de dezenas de textos selecionados e publicados em antologias e coletâneas poéticas e de contos, também publicou o livro de sua autoria:      Pedacinhos de Amor — vencedor do I Concurso Trapiche de Poesia.

“Correr, ler, escrever, aprender e compartilhar, até quando Deus quiser”, assim define seus ideais.

Faz parte da Sociedade de Autores Literários — SAL, onde atua como escritora e editora dentro das várias antologias já lançadas. Também é uma das organizadoras do grupo literário “Mulheres & Poesias”.

Os seus livros podem ser adquiridos na Amazon, no Clube de Autores ou diretamente com a autora, através de contato em suas redes sociais.

Os trabalhos da autora, além de suas redes sociais, podem sem acompanhados em: @ro_.martins | Linktree

 

Observação do Autor

“Infâncias Entrelaçadas” é uma coletânea de textos, que, apesar de interligados, podem ser lidos isoladamente como contos. Eles trazem episódios da infância de alguns dos personagens que constam no romance “Correntes de Papel”, também de minha autoria.

Funcionam como uma introdução à obra principal. São capítulos que não chegaram a entrar na sua composição, dispostos de forma cronológica, mas que antecedem ao enredo do livro. Por isso, para melhor percepção e imersão na construção do intenso amor entre a filha de um poderoso senhor de engenho e um de seus escravos, decidi disponibilizá-los nesse formato e recomendar a sua leitura antes da obra principal, “Correntes de Papel”.

Que seja uma leitura agradável e proveitosa!

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